Pacientes do Hospital Infantil Luís França receberam certificados de superação após enfrentarem cirurgias, quimioterapia, radioterapia e longos períodos de acompanhamento oncológico
O toque de um sino marcou mais do que o encerramento de um tratamento. Para 20 crianças e adolescentes e suas famílias, o som representou a chegada a uma etapa esperada durante meses ou anos: o fim de um ciclo de enfrentamento ao câncer e o começo de uma rotina em que novos planos voltam a ganhar espaço.

A celebração aconteceu no Hospital Infantil Luís França, em Fortaleza, durante o Ciclo da Superação. Os pacientes receberam o Certificado de Superação em Oncologia Pediátrica depois de trajetórias que envolveram consultas, internações, cirurgias, quimioterapia, radioterapia e períodos de incerteza para toda a família. A cerimônia reuniu pacientes, parentes e profissionais de saúde.

Mais do que representar uma alta simbólica, o momento evidencia uma fase importante do tratamento oncológico infantil. Os pacientes que concluem essa etapa continuam sendo acompanhados periodicamente por meio de consultas e exames. Segundo a equipe médica, o monitoramento pode se estender por anos, inclusive para identificar precocemente eventuais sinais de retorno da doença.
Uma infância atravessada pelo tratamento
Entre as histórias celebradas está a de Ana Lívia Maciel, de 6 anos. A descoberta da doença ocorreu depois que a família percebeu alterações no corpo da menina e procurou atendimento médico.
O diagnóstico de nefroblastoma, tipo de tumor renal também conhecido como tumor de Wilms, deu início a uma sequência de procedimentos. Ao longo do tratamento, Ana Lívia precisou enfrentar cirurgias, quimioterapia, radioterapia e internação em Unidade de Terapia Intensiva. Um segundo tumor também foi identificado, exigindo novo procedimento cirúrgico.
Foram aproximadamente um ano e seis meses entre o diagnóstico e o momento em que ela pôde tocar o sino.
“Cada etapa nesse processo de um ano e seis meses foi um sim de Deus. É um diagnóstico difícil, com um tratamento que não é fácil para o paciente e para a carga emocional do acompanhante. Mas nós vencemos e hoje sou grata a Deus por cuidar de mim e da minha filha”, relatou a mãe da criança.
A experiência também transformou a relação da família com os profissionais responsáveis pelo tratamento. Em meio aos dias de maior tensão, pequenos gestos de acolhimento passaram a ter outro significado.
“Os dias são pesados e, no meio de tudo isso, há situações em que a gente só precisa de um abraço”, afirmou.
Recomeço aos 14 anos
Davi Rufino, de 14 anos, também esteve entre os pacientes que chegaram à conclusão dessa etapa. Ele enfrentou um linfoma de Hodgkin descoberto ainda na pré-adolescência.
O adolescente conta que a doença foi identificada depois que a família percebeu um pequeno nódulo que persistia havia alguns dias. Com o diagnóstico realizado em fase inicial, começou o tratamento e passou a conviver com uma realidade distante da rotina habitual de alguém da sua idade.
Durante a celebração, Davi usou a própria experiência para destacar a importância da atenção aos sinais do corpo, do apoio familiar e da solidariedade com quem ainda permanece em tratamento.
“Para quem ainda está enfrentando essa batalha, peço que tenha fé e faço um apelo por mais solidariedade, mais amor e mais doações de sangue para tantas pessoas que precisam. Olhem para quem está no hospital, porque todos ali necessitam dessa força”, afirmou.
O cuidado que vai além da medicina
A dimensão emocional do tratamento também faz parte da rotina da unidade. Segundo o psicólogo Benevides Silva, da Hapvida, celebrar a conclusão dessa fase ajuda pacientes e familiares a atribuírem um novo significado a uma experiência marcada por medo, dor e incerteza.
“É um reconhecimento de toda a caminhada. Celebrar essa conquista ajuda a criança e a família a ressignificarem uma etapa tão desafiadora”, explicou.
O hospital também recebe ações de pet terapia. O trabalho voluntário conduzido por Luciana Atayde leva cães ao ambiente hospitalar para proporcionar momentos de interação e leveza durante a rotina de tratamento.
Para crianças submetidas a longas internações, consultas e procedimentos, iniciativas desse tipo ajudam a devolver ao ambiente hospitalar elementos associados à infância, como brincadeira, afeto e convivência.
Certificado marca passagem, não fim do acompanhamento
A entrega dos certificados não significa que consultas e exames deixam de fazer parte da vida dos pacientes.
Crianças e adolescentes que concluíram o tratamento permanecem em acompanhamento médico periódico. No serviço de oncologia pediátrica do Luís França, que funciona há cerca de dez anos, aproximadamente 300 pacientes já foram acompanhados e cerca de 40 permaneciam em seguimento no período da celebração.
O certificado representa, portanto, uma passagem entre duas fases: sai de cena a rotina intensiva de tratamento e começa um período de acompanhamento em que escola, família, brincadeiras e projetos pessoais podem voltar a ocupar espaço maior no cotidiano.
Estrutura dedicada à pediatria
O Hospital Infantil Luís França mantém atendimento exclusivamente pediátrico e reúne pronto-socorro, UTI pediátrica, centro cirúrgico e estrutura diagnóstica.
Em 2026, a unidade se tornou o primeiro hospital pediátrico brasileiro a receber três estrelas no Global Hospital Rating, avaliação conduzida pela Statista em parceria com a revista Newsweek. Entre os critérios considerados estão qualidade assistencial, segurança do paciente e tecnologia.
Para a diretora clínica Joana Maciel, o atendimento infantil exige uma combinação entre conhecimento técnico e atenção à dimensão emocional da experiência hospitalar.
“Cuidar de uma criança exige técnica, mas também acolhimento. Cada etapa vencida é uma conquista compartilhada pela família e por toda a equipe”, afirmou.
Quando os planos voltam
Ao final da cerimônia, cada certificado carregava muito mais do que um nome.
Representava aniversários atravessados pelo tratamento, dias de internação, noites de preocupação, exames aguardados com ansiedade e famílias reorganizadas em torno de uma prioridade: chegar até aquele momento.
Para Ana Lívia, Davi e os outros 18 pacientes, tocar o sino não apaga o que aconteceu nem encerra os cuidados médicos.
Mas muda a direção do olhar.
Depois de tanto tempo acompanhando resultados de exames, ciclos de medicação e procedimentos hospitalares, o futuro pode novamente ser preenchido por escola, amigos, brincadeiras, viagens, sonhos e planos que começam muito além dos corredores de um hospital.
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