Cineasta maranhense que já produziu nove filmes de ação lança financiamento coletivo para levar a franquia “Missão Resgate” a uma nova fase, com gravações previstas no Brasil e na China.
Há histórias de cinema que começam diante das câmeras. A de Marcelo Nunes começou diante de uma televisão, aos 13 anos, quando assistiu a Bruce Lee em “Operação Dragão” e decidiu que aquele universo faria parte de sua vida.
Décadas depois, o fascínio virou profissão. Sem grandes estúdios, investidores milionários ou uma estrutura tradicional da indústria audiovisual, o cineasta maranhense construiu uma trajetória incomum: colocou patrimônio próprio em risco, produziu nove filmes e encontrou na internet uma vitrine capaz de levar suas produções a milhares de espectadores.
Agora, ele tenta dar o passo provavelmente mais ambicioso dessa história.
Marcelo mobiliza uma campanha de financiamento coletivo para produzir “Missão Resgate 4: Conexão China”, novo capítulo de sua principal franquia, com a proposta de gravar cenas no Brasil e também na China.
O projeto conecta diretamente o presente do cineasta ao garoto que, décadas atrás, descobriu as artes marciais por causa de Bruce Lee.
E existe um detalhe que ajuda a dimensionar o quanto Marcelo levou esse sonho a sério: quando faltou dinheiro para produzir cinema, ele decidiu vender a própria casa e o carro.
Quando o sonho exigiu patrimônio próprio
O início profissional de Marcelo como produtor aconteceu em 2018. A realidade encontrada por ele, entretanto, estava distante das estruturas normalmente associadas a uma produção cinematográfica.
Sem grandes patrocinadores e sem recursos suficientes para financiar o primeiro longa, o diretor decidiu apostar no próprio projeto de uma maneira que poucas pessoas estariam dispostas a fazer.
Vendeu a casa e o carro para financiar a produção.
A decisão ajuda a entender a relação que Marcelo desenvolveu com o cinema independente. Não se trata apenas de alguém interessado em dirigir filmes. Sua trajetória foi construída em torno da tentativa de provar que também é possível desenvolver cinema de ação distante dos grandes polos brasileiros de produção.
Desde então, foram nove filmes.
As produções consolidaram uma linguagem baseada especialmente em ação, artes marciais, sequências coreografadas e histórias de personagens atravessados por desafios, conflitos e superação.
A escolha do gênero também não é casual.
Antes de pensar em dirigir, Marcelo queria ser ator de filmes de ação. Com o passar dos anos, percebeu que esperar pelo surgimento dessas oportunidades poderia significar simplesmente não realizá-las. Produzir suas próprias histórias acabou se tornando a alternativa.
“Missão Resgate” virou o principal cartão de visitas
Dentro da filmografia construída pelo maranhense, uma produção acabou assumindo papel especial.
A franquia “Missão Resgate” se tornou o trabalho de maior repercussão de Marcelo Nunes.
O primeiro filme ultrapassou a marca de 1 milhão de visualizações no YouTube, resultado relevante especialmente quando analisado dentro da realidade de uma produção independente, desenvolvida sem a máquina de divulgação disponível para grandes lançamentos comerciais.
O alcance também mostrou que havia público para aquele tipo de produção.
O cinema de ação brasileiro ainda disputa espaço em uma indústria nacional historicamente associada a outros gêneros. Produzir artes marciais, cenas coreografadas e narrativas influenciadas pelo cinema internacional exige técnica, preparação e recursos.
Marcelo decidiu permanecer justamente nesse território.
Suas referências ajudam a explicar a construção estética dessa trajetória. Bruce Lee e Jackie Chan aparecem ao lado de nomes como Sylvester Stallone, Clint Eastwood, Quentin Tarantino e José Padilha.
Entre as referências brasileiras está também o cearense Edmilson Filho, cuja carreira mantém forte ligação com artes marciais e produções audiovisuais de ação e comédia.
As influências são variadas, mas a intenção de Marcelo é clara: encontrar uma identidade própria para o gênero dentro do Brasil.
A China deixa de ser apenas inspiração
Se os filmes de Bruce Lee ajudaram a despertar o sonho ainda na adolescência, “Missão Resgate 4” pretende fechar parte desse ciclo de uma maneira bastante simbólica.
O subtítulo escolhido é “Conexão China”.
A proposta prevê que parte da produção seja realizada no país asiático, incorporando cenários e elementos culturais chineses à narrativa.
Para Marcelo, não seria apenas uma mudança geográfica. A produção representaria uma evolução de escala para uma franquia que nasceu de maneira independente e cresceu apoiada principalmente na persistência de seu criador.
A intenção é colocar elementos das culturas brasileira e chinesa dentro de uma mesma história, expandindo o universo cinematográfico construído nos capítulos anteriores.
Só que viajar com uma equipe, produzir cenas internacionalmente e elevar o padrão técnico de um longa exige recursos muito superiores aos de uma filmagem convencional.
É justamente aqui que começa uma nova batalha fora das telas.
Financiamento coletivo coloca o público dentro do projeto
Marcelo lançou uma campanha de financiamento coletivo para tentar viabilizar a etapa internacional de “Missão Resgate 4: Conexão China”.
A estratégia transforma espectadores e admiradores do cinema independente em participantes diretos do processo de produção.
Em vez de depender exclusivamente de um grande patrocinador, o projeto tenta pulverizar o financiamento entre apoiadores interessados na continuidade da franquia e na proposta de um cinema de ação produzido de forma independente.
A campanha está disponível na plataforma Kickante:
O financiamento coletivo também diz muito sobre uma mudança vivida pelo próprio mercado audiovisual.
Projetos que dificilmente encontrariam espaço dentro dos modelos tradicionais de investimento passaram a conseguir mobilizar comunidades próprias. Nem sempre são produções destinadas a competir com grandes estúdios. Muitas vezes, são obras que existem justamente porque encontraram um público disposto a sustentá-las.
No caso de Marcelo, essa relação começou antes da campanha. Os números conquistados pelos filmes na internet indicam que existe uma audiência acompanhando essa trajetória.
Agora, a pergunta é se essa audiência também estará disposta a financiar seu capítulo seguinte.
Maranhão no mapa do cinema de ação
A ambição de Marcelo não termina em “Missão Resgate 4”.
Um dos objetivos do cineasta é contribuir para que o Maranhão desenvolva uma presença maior no mercado brasileiro de produções de ação.
Isso envolve uma discussão interessante sobre descentralização do audiovisual nacional.
Produções brasileiras ainda estão fortemente concentradas nos grandes centros econômicos. Quando um realizador consegue produzir sucessivamente fora desse circuito, ele não cria apenas filmes. Pode estimular profissionais locais, formar equipes, movimentar fornecedores e demonstrar que determinada região também possui capacidade de desenvolver audiovisual.
É esse ecossistema que Marcelo pretende fortalecer.
Entre os projetos seguintes já imaginados pelo cineasta está “Coração de Aço”, outro longa que também prevê cenas na China.
A internacionalização, portanto, não aparece como uma experiência isolada. Ela começa a fazer parte da estratégia de expansão artística do diretor.
Uma história que poderia facilmente ter terminado no primeiro filme
Existe algo especialmente curioso na trajetória de Marcelo Nunes.
Vender patrimônio pessoal para produzir um longa poderia ter sido o ponto máximo de uma aventura cinematográfica. O filme seria lançado, a experiência terminaria e a vida seguiria outro caminho.
Não foi o que aconteceu.
Vieram outros projetos. Depois outro. E outro.
Hoje são nove filmes.
Essa continuidade talvez seja o aspecto mais revelador de sua história. Produzir cinema independente exige criatividade, obviamente, mas também uma quantidade enorme de insistência. Há equipamentos, elenco, locações, pós-produção, divulgação, distribuição e uma conta que precisa fechar antes mesmo de o público conhecer o resultado.
Marcelo escolheu permanecer.
“Não é fácil, mas também não é impossível. É preciso acreditar no propósito, permanecer firme diante das dificuldades e nunca desistir dos próprios sonhos”, afirma.
Pode soar como uma frase de filme. No caso dele, entretanto, existe uma casa vendida, um carro vendido e nove produções concluídas para sustentar cada palavra.
Agora, a próxima cena dessa história depende também do público.
Serviço
Projeto: Missão Resgate 4: Conexão China
Direção: Marcelo Nunes
Proposta: produção de um novo longa da franquia com gravações no Brasil e na China
Campanha: financiamento coletivo pela plataforma Kickante
Como apoiar: https://www.kickante.com.br/financiamento-coletivo/viajem-para-china-afim-de-fazer-a-gravacao-do-filme-missao-resgate-4-conexao-china
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