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Fotografar para lembrar ou por medo de esquecer? Celular pode revelar sinais de ansiedade

Fotografar para lembrar faz parte da rotina de milhões de pessoas, mas o hábito pode exigir atenção quando o registro deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como forma de aliviar ansiedade e controlar incertezas.
@feedfortal 20 de agosto de 2026 7 minutes read
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Psiquiatra explica como o hábito de registrar tudo pode funcionar como memória auxiliar, mas também se transformar em busca por controle quando deixar de fotografar provoca angústia ou insegurança.

Fotos de viagens, aniversários e encontros com pessoas queridas dividem espaço na galeria do celular com documentos, prints, produtos para comprar, endereços, informações importantes e uma infinidade de registros que talvez nunca mais sejam vistos. Fotografar para lembrar se tornou parte da rotina, mas o hábito também pode revelar uma relação com a ansiedade quando surge o medo constante de esquecer ou perder alguma informação.

A reflexão ganha espaço por ocasião do Dia Mundial da Fotografia, celebrado em 19 de agosto. Para a psiquiatra e psicoterapeuta Renata Covre, da Hapvida, que também atua como fotógrafa, o número de imagens armazenadas não é suficiente para indicar um problema. O ponto principal é compreender a função que o registro exerce na vida de cada pessoa.

“Fotografar, por si só, não é um problema. Hoje a câmera do celular também funciona como uma espécie de memória auxiliar. O que começa a chamar atenção é quando deixa de ser uma escolha e vira quase uma necessidade”, explica.

Quando fotografar passa a aliviar a ansiedade

Fazer dezenas ou centenas de fotos não significa necessariamente que exista um comportamento prejudicial. A quantidade pode estar relacionada ao trabalho, a um hobby ou simplesmente ao interesse pela fotografia.

O sinal de alerta aparece quando não conseguir registrar uma situação provoca desconforto intenso, insegurança ou a sensação de que alguma coisa poderá dar errado.

“Se eu fotografo porque quero guardar uma lembrança, é algo. Se eu fotografo para aliviar uma ansiedade, pensando ‘se eu não registrar, algo de ruim pode acontecer’, já existe uma função diferente”, afirma Renata.

Nesse cenário, o celular oferece uma resposta rápida para a busca por segurança. Diante de uma dúvida, a pessoa fotografa, confere ou arquiva uma informação e experimenta uma sensação momentânea de alívio. O comportamento, porém, pode voltar sempre que uma nova incerteza aparece.

A especialista destaca que o aspecto mais importante é perceber se ainda existe liberdade para decidir quando utilizar a câmera.

Registrar tudo pode tirar a atenção do presente

O hábito de fotografar também apresenta um paradoxo. Enquanto a pessoa tenta preservar uma experiência para o futuro, pode acabar dedicando menos atenção ao momento que está vivendo.

Um exemplo comum acontece durante shows. Entre escolher o enquadramento, gravar vídeos, conferir a qualidade das imagens e decidir o que ainda precisa ser registrado, parte significativa da atenção deixa de estar concentrada na apresentação.

“Para formar uma memória, primeiro a gente precisa estar minimamente presente e prestar atenção naquela experiência. Mas, às vezes, a pessoa está tão preocupada em garantir uma boa lembrança para o futuro que diminui drasticamente a atenção ao que está acontecendo no presente”, explica a psiquiatra.

Isso não significa que fotografar seja prejudicial à memória. Uma imagem pode funcionar como um importante estímulo para recuperar experiências, pessoas, lugares e acontecimentos.

“A diferença está justamente em como usamos a câmera. Uma fotografia pode ajudar a guardar uma experiência. O problema é quando a preocupação em guardar se torna tão grande que quase não sobra espaço para viver aquilo que queremos guardar”, reforça.

Fotografia também pode estimular a atenção

A relação entre fotografia e atenção não precisa ser negativa. Renata destaca que o ato de fotografar também pode estimular um olhar mais cuidadoso para situações que normalmente passariam despercebidas.

“Fotografar pode ser uma maneira muito bonita de prestar atenção e ver detalhes. Quando você gosta de fotografia, às vezes começa a observar uma luz, uma expressão, uma cena que talvez passasse despercebida”, conta.

O equilíbrio está justamente na possibilidade de escolher entre registrar ou apenas aproveitar.

“Eu posso olhar uma cena e pensar: ‘isso eu quero fotografar’. Mas também consigo pensar: ‘essa eu quero só viver’. Quando a pessoa sente que não consegue fazer essa segunda escolha, aí vale observar melhor”, orienta.

Milhares de fotos e poucas lembranças revisitadas

A facilidade proporcionada pelos smartphones criou outro fenômeno contemporâneo: galerias com milhares de arquivos que dificilmente serão vistos novamente.

“Hoje temos milhares de fotografias, mas muitas vezes quase não voltamos a elas. Podemos acabar acumulando registros sem necessariamente transformá-los em lembranças significativas”, observa a médica.

Uma possibilidade é tornar o uso dessas imagens mais intencional. Selecionar fotografias importantes, organizar álbuns, imprimir alguns registros ou simplesmente rever fotos ao lado de familiares e amigos pode ajudar a transformar arquivos digitais em lembranças com significado.

“A fotografia deixa de ser apenas um arquivo acumulado no celular e passa a funcionar como uma pista para reconstruir aquela história”, explica Renata.

A experiência humana também vai além da imagem. Conversas, músicas, cheiros, sensações e emoções fazem parte da construção das memórias e não podem ser completamente capturados pela câmera.

“Existem memórias que não são essencialmente visuais: lembrar de uma conversa, de um cheiro, de uma música, da sensação que tivemos naquele lugar. Estar presente ajuda a registrar também essas outras dimensões da experiência”, afirma.

Quando o hábito merece atenção

Não existe uma quantidade considerada ideal de fotografias. Fotografar muito também não significa, isoladamente, que uma pessoa tenha ansiedade ou algum transtorno psicológico.

O alerta está associado principalmente ao sofrimento, ao impacto na rotina e à perda da capacidade de escolher.

“Se a pessoa percebe que fica muito angustiada quando não consegue registrar ou conferir alguma coisa; se perde muito tempo fotografando, organizando, arquivando ou checando; se isso começa a gerar conflitos, atrasos ou prejuízo nas relações; ou se percebe que precisa fazer esses comportamentos repetidamente para aliviar uma ansiedade, pode ser interessante procurar ajuda”, orienta.

Segundo a psiquiatra, também é importante observar quando se estabelece um ciclo repetitivo: aparece uma dúvida ou desconforto, a pessoa registra algo para sentir segurança, experimenta alívio e depois volta a sentir necessidade de realizar o mesmo comportamento diante de outra incerteza.

“A fotografia nos oferece inúmeras ferramentas para diminuir pequenas incertezas do cotidiano. Só que nem sempre precisar ter certeza de tudo nos deixa menos ansiosos. Às vezes, pode justamente nos treinar a tolerar cada vez menos a possibilidade de esquecer, perder ou simplesmente não ter tudo registrado”, pontua.

Mais do que estabelecer limites para a quantidade de fotos, a reflexão passa pela forma como cada pessoa utiliza a câmera. Registrar uma experiência pode ajudar a preservar histórias, mas conseguir guardar o celular e simplesmente viver o momento também faz parte da construção das lembranças.

Serviço

Tema: Fotografia, memória e ansiedade
Especialista: Renata Covre, psiquiatra e psicoterapeuta da Hapvida e fotógrafa
Dia Mundial da Fotografia: 19 de agosto

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