Especialista da Life DH alerta que empresas precisam transformar o cuidado com a saúde mental em política estrutural, com gestão de riscos psicossociais, lideranças preparadas e segurança psicológica
A saúde mental no trabalho volta ao centro das discussões com a chegada do Setembro Amarelo, período marcado por campanhas de conscientização, prevenção e incentivo ao cuidado emocional. Para especialistas, porém, iniciativas concentradas apenas durante o mês de setembro são insuficientes diante do crescimento dos transtornos mentais e comportamentais e da necessidade de transformar o bem-estar dos trabalhadores em parte permanente da gestão das empresas.
Dados preliminares referentes a 2025 apontam que foram concedidos no Brasil 546.254 benefícios relacionados a transtornos mentais e comportamentais, crescimento de 15,66% na comparação com 2024, quando foram registrados 472.328 benefícios. O cenário amplia a discussão sobre ansiedade, depressão, esgotamento profissional e outros quadros que podem comprometer a capacidade para o trabalho.
Para a consultoria em desenvolvimento humano Life DH, o avanço dos indicadores mostra que palestras isoladas, campanhas internas e ações simbólicas não devem substituir mudanças efetivas nas relações e nos processos de trabalho. A proposta é que a saúde mental seja incorporada às estratégias das organizações durante os 12 meses do ano.
Nesse contexto, ganha espaço o conceito de wellness washing, expressão utilizada para definir situações em que o discurso institucional de valorização do bem-estar não corresponde ao cotidiano dos trabalhadores. Isso pode ocorrer quando uma empresa promove campanhas de saúde emocional, mas mantém ambientes caracterizados por sobrecarga, pressão excessiva, comunicação inadequada, metas incompatíveis ou relações profissionais pouco saudáveis.
“Não adianta colorir a empresa de amarelo em setembro se a cultura organizacional adoece os colaboradores de outubro a agosto. O verdadeiro compromisso com a saúde mental exige segurança psicológica: um ambiente onde as pessoas possam se expressar, contribuir, reconhecer erros, aprender e pedir ajuda sem medo de punição ou rotulação”, destaca Fernanda Macedo, psicóloga e diretora da Life DH.
Riscos psicossociais ampliam debate dentro das empresas
A discussão ganhou ainda mais relevância em 2026 com as mudanças na Norma Regulamentadora nº 1, a NR-1. A nova redação do capítulo relacionado ao gerenciamento de riscos ocupacionais entrou em vigor em 26 de maio e passou a incluir de maneira expressa os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho entre os aspectos que precisam ser considerados pelas organizações.
Entre as situações que podem estar associadas a esses riscos estão sobrecarga de atividades, jornadas excessivas, conflitos, assédio, falta de apoio, pressão constante e problemas relacionados à organização e à gestão do trabalho.
Em junho, o Supremo Tribunal Federal suspendeu temporariamente a aplicação de multas e outras sanções relacionadas especificamente a dispositivos sobre riscos psicossociais, medida posteriormente confirmada pelo plenário da Corte em agosto. As diretrizes gerais da norma, entretanto, continuam válidas enquanto ocorre a discussão sobre critérios de fiscalização e aplicação das penalidades.
Para as empresas, a mudança reforça um movimento que vai além do cumprimento de exigências formais. A prevenção passa pela compreensão das condições reais em que as atividades são desenvolvidas e pela identificação dos fatores organizacionais capazes de contribuir para sofrimento, estresse e adoecimento.
Diagnóstico deve ser ponto de partida
Segundo a Life DH, uma política permanente de saúde mental no trabalho começa pelo diagnóstico da realidade organizacional. O levantamento permite identificar fatores de risco psicossocial, situações de sobrecarga, fragilidades nas relações entre equipes e lideranças e características da cultura corporativa que possam afetar o bem-estar dos profissionais.
A análise também deve considerar a forma como metas são estabelecidas, a distribuição de responsabilidades, a comunicação interna, a autonomia oferecida aos trabalhadores e as condições disponíveis para execução das atividades.
Com essas informações, as empresas podem definir medidas de prevenção e acompanhamento mais compatíveis com os problemas identificados, evitando soluções genéricas ou ações que não dialoguem com as necessidades dos trabalhadores.
Lideranças têm papel estratégico
Outro ponto considerado essencial é a preparação das lideranças. Gestores estão diretamente envolvidos na construção do ambiente de trabalho e podem contribuir tanto para relações profissionais mais saudáveis quanto para contextos de pressão e insegurança.
A formação das lideranças deve favorecer práticas de comunicação clara, respeito, escuta e acompanhamento das equipes, além de ampliar a capacidade de identificar sinais de esgotamento e mudanças importantes de comportamento.
Também fazem parte desse processo a criação de canais seguros de escuta e acolhimento e a adoção de práticas que contribuam para o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, incluindo o respeito aos períodos de descanso.
“Construir um ambiente psicologicamente seguro não significa ausência de cobrança, responsabilidade ou metas. Significa criar condições saudáveis e sustentáveis para que as pessoas possam alcançá-las. Quando a liderança é preparada para escutar, os riscos psicossociais são gerenciados e os processos respeitam os limites humanos, a organização fortalece o engajamento, reduz fatores associados ao adoecimento e cria melhores condições para a produtividade e o desenvolvimento das pessoas”, reforça Fernanda Macedo.
A discussão proposta durante o Setembro Amarelo, portanto, pode funcionar como ponto de partida para mudanças mais amplas. Para especialistas em desenvolvimento humano, o desafio das organizações é fazer com que o cuidado não termine quando setembro chegar ao fim, incorporando prevenção, escuta e segurança psicológica à rotina e à própria estratégia dos negócios.
Serviço
Tema: Saúde mental e segurança psicológica no trabalho
Especialista: Fernanda Macedo, psicóloga e diretora da Life DH
Empresa: Life DH
Período de conscientização: Setembro Amarelo 2026
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