Nutricionista alerta que telas durante as refeições podem reduzir a interação familiar, dificultar a percepção de saciedade e interferir na construção de uma relação saudável com os alimentos
O celular nas refeições infantis pode parecer um aliado para pais que enfrentam dificuldades para manter os filhos à mesa ou estimular a aceitação dos alimentos. A prática, cada vez mais incorporada à rotina das famílias, porém, pode interferir na percepção de fome e saciedade, diminuir a interação durante as refeições e contribuir para a formação de hábitos alimentares inadequados na infância.
Celulares, tablets e televisão costumam ser utilizados como estratégia para distrair as crianças enquanto elas comem. Segundo a nutricionista infantil e especialista em Terapia Alimentar da Hapvida, Anne Letícia Dias, o problema ocorre quando a atenção da criança deixa de estar direcionada à experiência da alimentação.

“Quando a criança está totalmente concentrada na tela, ela deixa de prestar atenção aos sinais naturais de fome e saciedade, reduz a interação com a família e participa menos da experiência alimentar. Comer também é aprender, explorar, observar e desenvolver autonomia”, explica.
Refeição também é momento de aprendizagem
A alimentação infantil envolve mais do que consumir os nutrientes necessários para o crescimento. Durante as refeições, a criança observa os familiares, conhece novos alimentos e desenvolve habilidades relacionadas à autonomia e ao comportamento alimentar.
Pesquisas sobre o uso de telas na primeira infância indicam que a presença excessiva de dispositivos eletrônicos em momentos de interação entre crianças e responsáveis pode reduzir oportunidades de comunicação e aprendizagem.
No Brasil, as orientações para a alimentação infantil recomendam que as refeições aconteçam em ambientes tranquilos e livres de distrações, principalmente televisão, celulares e tablets. A proposta é permitir que a criança participe ativamente daquele momento e reconheça com maior facilidade quando está com fome ou satisfeita.
A chamada alimentação responsiva também ganha destaque nesse processo. A prática busca estimular pais e cuidadores a reconhecer e responder aos sinais apresentados pela criança, sem utilizar pressão, coerção ou distrações para fazê-la comer.
Telas podem interferir na qualidade da alimentação
O hábito de assistir a vídeos, desenhos ou outros conteúdos enquanto come também vem sendo relacionado a padrões alimentares menos saudáveis.
Estudos realizados com crianças e adolescentes identificaram associações entre maior exposição às telas e aspectos como consumo elevado de doces e bebidas açucaradas, além de menor presença de alimentos considerados importantes para uma alimentação equilibrada.
A distração também pode dificultar que a criança perceba o próprio ritmo de alimentação. Quando toda a atenção está direcionada para o conteúdo exibido na tela, sinais naturais do organismo podem passar despercebidos.
Uso ocasional não deve gerar culpa nos pais
Apesar das recomendações, Anne Letícia ressalta que recorrer ocasionalmente ao celular ou à televisão durante uma refeição não deve ser motivo de culpa para as famílias.
“A rotina das famílias mudou muito e sabemos que o momento da refeição para crianças pode ser difícil. O importante é que o celular não se torne uma estratégia permanente para alimentar a criança. Pequenas mudanças, como desligar a televisão durante uma refeição por dia ou incentivar conversas à mesa, já representam um passo importante”, afirma.
A especialista destaca que a mudança pode ocorrer de forma gradual, principalmente em famílias nas quais a criança já está acostumada a utilizar dispositivos durante todas as refeições.
Primeiros anos ajudam a construir relação com a comida
Os primeiros anos de vida têm papel importante na formação dos hábitos alimentares. Nesse período, as crianças descobrem os alimentos por meio dos sentidos, observando cores, sentindo aromas e explorando diferentes sabores, temperaturas e texturas.
Essas experiências ajudam a ampliar o repertório alimentar e permitem que a criança desenvolva maior familiaridade com diferentes preparações.
“Cada refeição é uma oportunidade para a criança construir uma relação positiva com os alimentos. Quanto mais presente ela estiver nesse momento, maiores são as oportunidades de aprendizado e desenvolvimento”, ressalta Anne Letícia.
Como reduzir as telas durante as refeições
Mais do que retirar o celular de forma repentina, a orientação é transformar progressivamente a refeição em um momento de convivência.
Entre as medidas que podem ser incorporadas à rotina estão evitar celulares, tablets e televisão à mesa, tentar compartilhar pelo menos uma refeição por dia em família, conversar com a criança sobre os alimentos oferecidos e respeitar seus sinais de fome e saciedade.
A participação dos pequenos também pode ser estimulada. Dependendo da idade, eles podem ajudar a escolher alimentos, organizar a mesa ou participar de tarefas simples relacionadas ao preparo e ao momento de servir.
O comportamento dos adultos também influencia. Quando pais e responsáveis deixam seus próprios celulares de lado durante as refeições, ajudam a estabelecer uma rotina na qual a atenção está direcionada à comida e à convivência familiar.
Serviço
Orientações para uma rotina alimentar com menos telas
Evitar televisão, celulares e tablets durante as refeições.
Priorizar ambientes tranquilos e sem distrações.
Respeitar os sinais de fome e saciedade da criança.
Estimular conversas e interação familiar à mesa.
Permitir que a criança conheça cores, aromas, sabores e texturas dos alimentos.
Incentivar a participação dos pequenos na rotina alimentar de acordo com a idade.
Fotos: Divulgação
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