Técnica permite analisar margens da próstata ainda durante a operação e auxilia o cirurgião na decisão de preservar os feixes nervosos ligados à ereção; no Ceará, método já foi associado à cirurgia robótica

O NeuroSAFE no câncer de próstata tem ganhado espaço como uma estratégia para aumentar as chances de preservação da função sexual de homens submetidos à prostatectomia radical. Um estudo publicado em 2025 identificou função erétil preservada em 68% dos pacientes operados com auxílio da técnica após um ano, contra 58% entre aqueles submetidos à cirurgia sem o método.
Para muitos pacientes diagnosticados com câncer de próstata, a preocupação não termina com o controle da doença. As consequências do tratamento sobre a função sexual e urinária podem se tornar alguns dos principais desafios após uma cirurgia ou radioterapia, afetando autoestima, relacionamentos e qualidade de vida.
Um dos maiores estudos comparativos sobre o tema, o ProtecT, mostrou que a prostatectomia radical foi, entre as modalidades analisadas, a que provocou maior impacto negativo sobre a função sexual e a continência urinária.
Outro levantamento, publicado no European Urology em 2021, avaliou pacientes oito anos após o tratamento. A disfunção erétil foi observada em 66% dos homens submetidos à prostatectomia robótica e em 70% daqueles que passaram pela cirurgia aberta.
Como o NeuroSAFE atua durante a cirurgia

É nesse cenário que o NeuroSAFE no câncer de próstata surge como uma ferramenta para ajudar a equilibrar duas prioridades: retirar o tumor com segurança e, sempre que as características da doença permitirem, preservar estruturas relacionadas à função sexual.
Durante uma prostatectomia radical, os feixes neurovasculares responsáveis pela ereção estão localizados muito próximos à próstata. Dependendo da localização e da extensão do câncer, esses nervos podem precisar ser parcial ou totalmente removidos para evitar que tecido tumoral permaneça no organismo.
Com o NeuroSAFE, após a retirada da próstata, tecidos das áreas próximas aos feixes neurovasculares são submetidos a uma análise anatomopatológica por congelação enquanto o paciente ainda está na sala de cirurgia.
O resultado ajuda a indicar se existem células tumorais próximas às margens analisadas. Com essa informação em mãos, a equipe cirúrgica pode decidir com maior segurança se determinado feixe nervoso pode ser preservado ou se uma retirada adicional de tecido será necessária.
Ceará realizou procedimento com NeuroSAFE

No Ceará, a aplicação da técnica ganhou um marco em abril de 2026, quando foi realizada a primeira cirurgia robótica no estado para tratamento do câncer de próstata utilizando o NeuroSAFE, sob coordenação dos urologistas e cirurgiões robóticos Dr. Diego Capibaribe e Dr. Emanuel Veras.
Segundo Diego Capibaribe, embora o controle do câncer seja a prioridade do tratamento, os efeitos da cirurgia na vida do paciente também precisam ser considerados.
“A função erétil e a continência urinária fazem parte da qualidade de vida do paciente, por isso, sempre que as características do tumor permitirem, devemos buscar estratégias que possibilitem preservar as estruturas responsáveis por essas funções”, explica.
Nas cirurgias realizadas sem a análise intraoperatória pelo NeuroSAFE, a decisão sobre a preservação dos nervos costuma considerar principalmente exames feitos antes da operação, características do tumor e a avaliação do cirurgião durante o procedimento.
De acordo com Emanuel Veras, a análise anatomopatológica realizada ainda durante a cirurgia acrescenta uma informação importante para essa tomada de decisão.
“O NeuroSAFE acrescenta uma informação muito importante, pois conseguimos analisar as extremidades da próstata enquanto o paciente ainda está na sala de cirurgia. Se não houver comprometimento tumoral naquela região, temos maior segurança para preservar o feixe nervoso”, afirma.
Função erétil foi preservada em 68% dos pacientes
A evidência científica em torno da técnica vem aumentando. Em estudo publicado em 2025, pacientes submetidos à prostatectomia radical com o NeuroSAFE apresentaram melhores resultados relacionados à função erétil um ano depois do procedimento.
No grupo operado com auxílio da técnica, 68% apresentaram função erétil preservada após um ano. Entre os pacientes submetidos ao procedimento sem NeuroSAFE, o índice ficou em 58%.
A diferença de dez pontos percentuais reforça o potencial do método para ampliar a preservação funcional principalmente em situações nas quais a manutenção dos feixes neurovasculares é considerada segura do ponto de vista oncológico.
“Quando associamos a visão ampliada e a precisão da robótica ao NeuroSAFE, passamos a ter uma ferramenta bastante eficiente para nos guiar durante a operação. O objetivo é retirar o tumor com segurança e, quando possível, preservando ao máximo as estruturas adjacentes”, afirma Capibaribe.
Técnica não elimina risco de disfunção erétil
Apesar dos resultados, o NeuroSAFE e a cirurgia robótica não garantem a manutenção da potência sexual ou a ausência de alterações urinárias depois da prostatectomia.
A recuperação varia de acordo com fatores como idade do paciente, função erétil antes do tratamento, características e localização do câncer, extensão da doença, possibilidade de preservação dos feixes neurovasculares, técnica cirúrgica utilizada e processo individual de recuperação.
Por isso, a indicação precisa ser analisada individualmente pela equipe responsável pelo tratamento.
Para Emanuel Veras, a evolução do tratamento do câncer de próstata também passa por considerar como estará a qualidade de vida do homem nos meses e anos seguintes.
“Hoje precisamos pensar também em como esse homem estará meses e anos depois da cirurgia. Poder preservar a função sexual e urinária, quando isso é seguro do ponto de vista oncológico, representa um ganho importante de qualidade de vida”, destaca.
Serviço
NeuroSAFE no tratamento cirúrgico do câncer de próstata
O que é: técnica de análise anatomopatológica por congelação realizada durante a prostatectomia radical.
Objetivo: auxiliar a equipe cirúrgica na avaliação das margens próximas aos feixes neurovasculares e aumentar a segurança da decisão sobre a preservação dos nervos.
Indicação: deve ser definida individualmente pelo urologista de acordo com as características do paciente e do tumor.
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