Reunião da Câmara de Tecnologia e Inovação discutiu riscos em cadeias de fornecedores, inteligência artificial e medidas de proteção que também alcançam micro e pequenos negócios
Cibersegurança nas empresas deixou de ser uma preocupação restrita aos departamentos de tecnologia e passou a envolver fornecedores, parceiros e toda a cadeia conectada a uma organização. Esse foi um dos principais pontos debatidos pela Câmara de Tecnologia e Inovação (CTI) da Fecomércio-CE durante reunião realizada em 18 de setembro, na sede da entidade, em Fortaleza.
O encontro teve como tema “Melhorando a resiliência e a capacidade de resposta das cadeias de suprimentos aeroespaciais por meio da Cibersegurança” e contou com a participação de Núbio Vidal, doutor em Ciências Empresariais pela Universidade do Minho e pesquisador de projeto desenvolvido em parceria entre a Edinburgh Napier University e a Airbus voltado à segurança cibernética em cadeias de suprimentos.
Presidida por Raniere Medeiros, a CTI levou a discussão para além do setor aeroespacial ao abordar como o avanço da inteligência artificial, a digitalização dos negócios e o crescimento das conexões entre empresas podem ampliar pontos de vulnerabilidade.
Cibersegurança vai além da própria empresa
Um dos aspectos discutidos foi o risco provocado pela interdependência entre organizações. Na prática, uma empresa pode investir na proteção de seus próprios sistemas e ainda permanecer exposta caso fornecedores e parceiros com acesso a informações ou ambientes digitais apresentem falhas de segurança.
Núbio Vidal utilizou como exemplo o ataque sofrido pela varejista norte-americana Target em 2013. O comprometimento começou a partir de credenciais de uma empresa terceirizada ligada a serviços de climatização e refrigeração e acabou permitindo o avanço dos invasores pela infraestrutura da companhia.
O episódio ajuda a ilustrar uma questão cada vez mais presente na gestão empresarial: conexões consideradas confiáveis também precisam ser avaliadas como parte da estratégia de cibersegurança.
No setor aeroespacial, essa dependência ganha uma dimensão ainda maior. Durante a apresentação, Vidal afirmou que cerca de 70% dos componentes de uma aeronave têm origem em fornecedores, o que torna a proteção da cadeia relevante para fatores como continuidade operacional, segurança e conformidade.
O pesquisador apresentou o AirCyber como uma das referências utilizadas para avaliar a maturidade cibernética de participantes da cadeia aeroespacial. Também citou o TISAX, modelo direcionado à segurança da informação no setor automotivo, além da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) no contexto brasileiro.
Inteligência artificial amplia oportunidades e ameaças
A transformação provocada pela inteligência artificial também entrou no debate. Ao mesmo tempo em que novas ferramentas podem aumentar produtividade e criar oportunidades para empresas, a tecnologia amplia a capacidade de execução de determinados golpes e ataques.
Phishing, deepfakes, esquemas de extorsão e falhas decorrentes do uso de softwares sem licença ou desatualizados estiveram entre as ameaças destacadas durante a reunião.
A discussão ganha relevância em um cenário no qual diferentes áreas de uma organização utilizam sistemas conectados, ferramentas em nuvem e dispositivos que podem trocar informações com fornecedores, clientes e prestadores de serviços.
Por isso, a estratégia de segurança precisa considerar não apenas ataques externos, mas também os acessos concedidos dentro do próprio ecossistema empresarial.
Prevenção passa por gestão de riscos
Entre as práticas apresentadas durante o encontro estão a avaliação contínua de riscos e a definição clara de um responsável pela cibersegurança dentro da organização.
Também foram abordadas medidas como segmentação das redes, realização de backups protegidos e testados, centralização dos registros de sistemas considerados críticos e adoção de indicadores que permitam acompanhar incidentes, vulnerabilidades e os tempos necessários para resposta e recuperação.
A escolha dos mecanismos de proteção, porém, precisa considerar o porte e a realidade de cada empresa. A proposta discutida durante a reunião não foi simplesmente aumentar a quantidade de ferramentas utilizadas, mas estruturar processos capazes de reduzir riscos e permitir uma reação mais eficiente em caso de incidente.
“Assim como cuidamos da nossa saúde por meio da prevenção e dos cuidados necessários, as empresas precisam tratar a cibersegurança como um investimento prioritário. Uma empresa segura consegue gerar mais segurança e confiança para seus clientes”, afirmou Núbio Vidal.
Pequenos negócios também precisam se proteger
A Câmara de Tecnologia e Inovação também direcionou parte da discussão aos micro e pequenos empresários do comércio de bens, serviços e turismo.
Mesmo negócios com estruturas menores lidam atualmente com sistemas de pagamento, cadastros de clientes, plataformas digitais, aplicativos, contas corporativas e outros ambientes que podem concentrar informações estratégicas ou dados pessoais.
Nesse contexto, a Fecomércio-CE destacou a necessidade de ampliar ações de orientação e comunicação com sindicatos e empresas, especialmente diante do surgimento de novas ameaças.
O debate reforça uma mudança na forma como a segurança digital vem sendo tratada no ambiente empresarial. Mais do que uma questão técnica, a cibersegurança nas empresas passa a integrar decisões relacionadas à gestão de riscos, relacionamento com fornecedores, continuidade dos negócios e confiança dos clientes.
Siga o @feedfortal no Instagram.




