Dor crônica pode comprometer sono, mobilidade, autonomia e vida social; especialista destaca importância de cuidado integrado
Durante o Setembro Amarelo, a discussão sobre saúde mental também chama atenção para condições físicas capazes de interferir de forma prolongada no bem-estar emocional. Entre elas está a dor crônica, problema que pode afetar o sono, a mobilidade, a autonomia, os relacionamentos e a participação em atividades sociais.
O Ministério da Saúde considera crônica a dor que ultrapassa três meses de duração. A condição não se limita ao desconforto físico. A Associação Internacional para o Estudo da Dor, a IASP, destaca que seus impactos podem atingir aspectos físicos, psicológicos, comportamentais e sociais da vida de uma pessoa. (Serviços e Informações do Brasil)
A Organização Mundial da Saúde também inclui a dor crônica e algumas doenças persistentes entre fatores que podem aumentar a vulnerabilidade ao comportamento suicida. Isso não significa uma relação direta ou isolada de causa e efeito. O próprio Ministério da Saúde ressalta que o suicídio é um fenômeno multifatorial e que condições dolorosas ou incapacitantes devem ser consideradas em conjunto com outros sinais de sofrimento. (Organização Mundial da Saúde)
Quando a dor começa a ocupar a rotina
Conviver durante semanas ou meses com uma limitação física pode modificar hábitos que antes faziam parte do cotidiano. Caminhar, praticar exercícios, trabalhar, dormir ou mesmo participar de encontros sociais podem se tornar mais difíceis.
Para a fisioterapeuta e sócia do Instituto Movis, Nívia Paula, um dos principais pontos de atenção é justamente evitar que a dor persistente seja normalizada.
“A dor crônica pode modificar a forma como a pessoa se relaciona com o próprio corpo e com a rotina. Muitas vezes, ela deixa de fazer atividades que gosta, reduz a prática de exercícios e passa a evitar determinados movimentos. Esse processo pode afetar a autonomia e também o estado emocional. É importante investigar a origem da dor e buscar acompanhamento adequado”, explica.
Entre os quadros que podem estar relacionados a dores persistentes estão artrose, problemas na coluna, tendinites e diferentes alterações musculoesqueléticas.
Menos movimento pode ampliar limitações
O receio de sentir dor pode levar algumas pessoas a evitar movimentos e atividades físicas. Embora determinadas condições exijam redução ou adaptação das atividades durante o tratamento, a interrupção indiscriminada dos movimentos também pode contribuir para perda de força, mobilidade e capacidade funcional.
A IASP aponta que a dor crônica pode levar à redução de atividades e ao isolamento social, reforçando a importância de estratégias individualizadas para preservar participação nas tarefas do cotidiano. (IASP)
Na fisioterapia, o acompanhamento pode incluir exercícios terapêuticos, fortalecimento, recuperação da mobilidade e estratégias voltadas ao retorno gradual às atividades.
“O tratamento precisa considerar o que aquela pessoa consegue fazer naquele momento e quais atividades deseja recuperar. Nosso papel é ajudá-la a retomar movimentos e funções de forma progressiva e segura. Em muitos casos, recuperar a capacidade de realizar uma atividade cotidiana representa uma mudança importante na qualidade de vida”, afirma Nívia.
Dor e sono podem formar um ciclo
Outro aspecto que merece atenção é o sono. A dor persistente pode dificultar o descanso, enquanto noites mal dormidas aumentam cansaço, indisposição e dificuldades para realizar tarefas ao longo do dia.
Esse conjunto de fatores pode interferir também no humor e na disposição para manter o tratamento. Ansiedade, irritabilidade, frustração, perda de interesse e isolamento são sinais que não devem ser ignorados quando aparecem de forma persistente.
O cuidado, portanto, não deve se restringir à tentativa de eliminar um sintoma físico.
Cuidado precisa ser integrado
O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Dor Crônica do Ministério da Saúde prevê acompanhamento multiprofissional, que pode reunir médicos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, profissionais de educação física e outros especialistas conforme as necessidades de cada paciente. (Saúde RS)
A fisioterapia pode integrar essa rede, especialmente na recuperação da função e da autonomia, mas não substitui atendimento médico ou psicológico quando existem sinais de sofrimento emocional.
“Quando percebemos que a dor está acompanhada de isolamento, alterações importantes de humor, perda de interesse pelas atividades ou sofrimento emocional, é fundamental ampliar o olhar e encaminhar o paciente para outros profissionais. Saúde física e saúde mental estão relacionadas e precisam ser cuidadas em conjunto”, destaca Nívia Paula.
Quando procurar ajuda
Mudanças importantes de comportamento, isolamento crescente, perda de interesse pelas atividades habituais, desesperança e manifestações relacionadas à vontade de morrer exigem atenção.
O Ministério da Saúde orienta que pessoas em sofrimento podem buscar atendimento nas Unidades Básicas de Saúde e nos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS. Em situações de urgência, também estão disponíveis UPA, pronto-socorro e SAMU pelo número 192. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia. (Serviços e Informações do Brasil)
Serviço
Instituto Movis
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