OMS estima que uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrente infertilidade ao longo da vida e recomenda que o cuidado inclua suporte psicossocial contínuo.
Infertilidade e saúde mental estão diretamente conectadas para muitas pessoas que atravessam meses ou anos de tentativas para engravidar. Em meio ao Setembro Amarelo, campanha dedicada à conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio, especialistas chamam atenção para um sofrimento que frequentemente permanece longe das conversas: o impacto emocional vivido por quem deseja ter filhos e encontra dificuldades no caminho.
A dimensão do problema é global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que aproximadamente uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrente infertilidade em algum momento da vida. A entidade define a condição como a ausência de gravidez após 12 meses ou mais de relações sexuais regulares sem contracepção. (Organização Mundial da Saúde)
Em novembro de 2025, a OMS publicou sua primeira diretriz global dedicada à prevenção, diagnóstico e tratamento da infertilidade. O documento reúne 40 recomendações e destaca que a condição pode provocar sofrimento significativo, estigma e dificuldades financeiras, com repercussões sobre o bem-estar mental e psicossocial. A entidade também reconhece que a experiência pode estar relacionada a depressão, ansiedade e isolamento social e defende acesso contínuo a suporte psicossocial para as pessoas afetadas. (Organização Mundial da Saúde)
Infertilidade vai além do diagnóstico
Para o ginecologista e especialista em reprodução humana Dr. Evangelista Torquato, uma dificuldade reprodutiva não deve ser analisada somente sob o aspecto biológico.
“Quando um casal chega ao consultório depois de meses ou até anos tentando engravidar, muitas vezes não estamos diante apenas de uma questão reprodutiva. Existe uma história de expectativas, frustrações, medo e cobranças. Por isso, tão importante quanto investigar as causas da infertilidade é olhar com atenção para as pessoas que estão vivendo esse processo”, explica.
A espera pelo teste positivo pode modificar a forma como momentos cotidianos são vividos. Datas comemorativas, encontros familiares, anúncios de gravidez de pessoas próximas e perguntas como “quando vem o bebê?” podem ampliar sentimentos de frustração, pressão e isolamento.
Torquato ressalta ainda que a infertilidade não deve ser associada à culpa. As causas podem envolver fatores do sistema reprodutivo feminino, masculino, uma combinação dos dois ou permanecer sem explicação mesmo após a investigação. A própria OMS reconhece a possibilidade de fatores masculinos, femininos ou inexplicados. (Organização Mundial da Saúde)
Quando procurar avaliação
Embora a definição clínica da OMS considere o período de 12 meses de relações regulares sem contracepção, a indicação para procurar avaliação médica pode ocorrer antes, dependendo da idade e do histórico de saúde.
Diretrizes da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva recomendam iniciar a investigação após 12 meses para mulheres com menos de 35 anos e após seis meses a partir dos 35. Acima dos 40 anos ou diante de condições conhecidas que possam afetar a fertilidade, a avaliação pode ser indicada de forma mais imediata. (Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva)
Procurar assistência também não significa necessariamente começar um tratamento de alta complexidade. A avaliação inicial permite conhecer o histórico reprodutivo, investigar possíveis fatores envolvidos e definir os próximos passos de maneira individualizada.
A diretriz da OMS prevê justamente uma progressão do cuidado conforme os achados clínicos e as preferências dos pacientes, partindo de estratégias mais simples até procedimentos como inseminação intrauterina ou fertilização in vitro quando houver indicação. (Organização Mundial da Saúde)
Saúde emocional também faz parte do tratamento
“Existe uma vida acontecendo enquanto se espera pela chegada de outra. O tratamento não pode fazer com que o casal deixe de olhar para a própria saúde, para a relação e para o bem-estar emocional. Quando percebemos um sofrimento importante, o acompanhamento de profissionais de saúde mental também deve fazer parte desse cuidado”, destaca Dr. Evangelista.
A recomendação encontra respaldo na diretriz global da OMS, que colocou o suporte psicossocial entre os componentes necessários de uma abordagem centrada nas pessoas. (Organização Mundial da Saúde)
No Setembro Amarelo de 2026, cujo lema é “Se precisar, peça ajuda!”, a discussão amplia o olhar sobre situações capazes de produzir sofrimento emocional e reforça a importância de buscar acompanhamento quando necessário. (Setembro Amarelo)
Para quem enfrenta a infertilidade, o cuidado, portanto, não termina na investigação de exames ou na escolha de um tratamento. Cuidar de quem sonha em gerar uma vida também passa por reconhecer e acolher quem está por trás desse sonho.
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