Com quase 12 milhões de resultados registrados em provas entre 2023 e 2025, modalidade avança pelo país enquanto evidências associam atividade física regular a benefícios para humor, sono e bem-estar.
A corrida de rua deixou de ocupar apenas calendários esportivos para entrar de vez na rotina de milhares de brasileiros. O crescimento das provas e das comunidades de corredores também abre espaço para uma discussão que ganha relevância durante o Setembro Amarelo: como a atividade física pode contribuir para o bem-estar emocional, a qualidade do sono, a construção de vínculos e uma rotina mais saudável.
O movimento aparece nos números. Um levantamento do Baixa Pace reúne 263 provas programadas em Santa Catarina ao longo de 2026. Já um estudo da ChronoMAX analisou 11,9 milhões de resultados de corridas de rua no Brasil entre 2023 e 2025. A plataforma informa cerca de 2 milhões de concluintes registrados na Região Sul e 1,9 milhão no Nordeste no período. Os dados representam resultados em provas, portanto uma mesma pessoa pode aparecer diversas vezes ao participar de diferentes eventos. (Baixa Pace)
Esse avanço acompanha uma transformação na relação do público com o esporte. Correr pode significar desempenho e competição para alguns, mas também passou a fazer parte de rotinas voltadas à socialização, lazer e cuidado com a saúde.
Atividade física e saúde mental
A relação entre exercício e saúde mental é respaldada por evidências científicas, embora a prática não deva ser apresentada como substituta de acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou de outros tratamentos quando necessários.
A Organização Mundial da Saúde aponta que a atividade física regular está associada à redução de sintomas de ansiedade e depressão, além de benefícios para o sono, a cognição e o bem-estar. (NCBI)
Uma revisão sistemática publicada pelo BMJ em 2024, envolvendo 218 estudos e mais de 14 mil participantes com depressão, identificou redução de sintomas associada a diferentes modalidades de exercício. Caminhada e corrida estavam entre as atividades analisadas. (BMJ)
Para a psiquiatra Andrea Cristina Galastri, docente do Instituto de Educação Médica (IDOMED), a regularidade é um dos pontos importantes dessa relação.
“Vários estudos já comprovam que quem pratica alguma atividade física, seja ela qual for, tem muito benefício em equilibrar humor, equilibrar ansiedade, melhorar qualidade de sono”, afirma.
As atividades aeróbicas, entre elas corrida, caminhada e ciclismo, aparecem com frequência nas pesquisas sobre saúde mental. Uma revisão publicada no British Journal of Sports Medicine, reunindo dezenas de meta-análises, também encontrou associação entre exercício e redução de sintomas de depressão e ansiedade. (British Journal of Sports Medicine)
O que acontece durante o exercício
Os efeitos da atividade física não dependem de um único mecanismo. Alterações fisiológicas, neuroquímicas, comportamentais e sociais podem atuar conjuntamente.
Andrea explica que neurotransmissores envolvidos em processos ligados à motivação, recompensa e regulação do humor estão entre os mecanismos estudados.
“Ela acaba aumentando a dopamina, que gera o bem-estar, a proatividade, energia e vitalidade, e a serotonina”, explica.
Outro campo de investigação envolve o BDNF, sigla para fator neurotrófico derivado do cérebro, proteína relacionada a processos de plasticidade neuronal. Revisões científicas apontam associação entre exercício aeróbico e alterações nos níveis de BDNF, embora a dimensão desse efeito varie conforme população, intensidade, duração e desenho dos estudos. (PubMed Central (PMC))
“A miocina, que é liberada pelo músculo durante o exercício, age diretamente no cérebro. Ela vai promover, por exemplo, a liberação de BDNF”, afirma Andrea.
A especialista também destaca benefícios cardiovasculares e de oxigenação associados à prática regular.
Sono entra na conta
A influência da atividade física pode aparecer em outra parte essencial da saúde mental: o sono.
Segundo Andrea, inserir exercícios de forma regular na semana ajuda a organizar hábitos cotidianos e pode contribuir para o equilíbrio do ciclo de sono e vigília.
“Alguém que faz frequentemente uma atividade ao longo da semana acaba tendo um equilíbrio no ciclo circadiano, ciclo de sono e vigília, então acaba dormindo melhor”, explica.
As diretrizes da OMS também incluem melhora do sono entre os benefícios relacionados à prática regular de atividade física em adultos. (NCBI)
Corrida também cria vínculos
Quem começa a correr frequentemente descobre um componente que não aparece no relógio ou no aplicativo: a convivência.
Assessoria entre corredores, treinos coletivos, grupos de bairro, equipes e encontros em provas podem ampliar redes sociais e criar um compromisso compartilhado com a atividade.
“Fazer parte de um grupo, ser aceito, ter quem convidar para um churrasquinho, para um cinema importa. A atividade física, o esporte, é uma boa forma de aproximar as pessoas e criar vínculos”, afirma a psiquiatra.
Há ainda a percepção de progresso. Completar os primeiros quilômetros, melhorar o condicionamento ou simplesmente manter uma rotina pode gerar sensação de realização.
Para Andrea, reconhecer os próprios avanços ajuda na continuidade do hábito.
“A conquista vem do orgulho, de a gente reconhecer que está fazendo bem, de conseguir os benefícios que estava procurando”, diz.
Começar pelo possível
Entrar no universo da corrida não exige que a primeira meta seja completar cinco ou dez quilômetros.
A OMS recomenda que adultos acumulem de 150 a 300 minutos de atividade aeróbica moderada por semana, ou de 75 a 150 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias. Para pessoas inativas, a orientação é começar com pequenas quantidades e aumentar frequência, intensidade e duração gradualmente. (NCBI)
O Ministério da Saúde também orienta que qualquer quantidade de atividade física é preferível à inatividade e inclui caminhada e corrida entre as possibilidades para inserir movimento no cotidiano. (57AB575B)
Andrea defende justamente metas compatíveis com a realidade de cada pessoa.
“Eu sempre proponho que quem não tem hábito comece com metas realistas. Colocar uma meta de duas vezes por semana já está bom. Vai começar a caminhar? Não tem que caminhar uma hora”, orienta.
O princípio ajuda a reduzir uma barreira comum entre iniciantes: criar uma meta difícil, não conseguir sustentá-la e interpretar isso como fracasso.
Quando o treino perde o equilíbrio
Os benefícios da atividade física não significam que todo padrão de exercício seja saudável.
A corrida merece atenção quando o treinamento passa a provocar sofrimento intenso, culpa recorrente por faltar a uma sessão, abandono sistemático de compromissos ou uma relação rígida com corpo e desempenho.
“A vida sempre é equilíbrio. Tudo que é demais faz mal, até atividade física”, alerta Andrea.
A especialista afirma que comportamentos extremos podem aparecer associados a transtornos alimentares ou de imagem corporal e devem ser avaliados profissionalmente quando começam a interferir no cotidiano.
O Ministério da Saúde também reconhece que, apesar dos benefícios do exercício para a saúde mental, práticas excessivas podem estar associadas a prejuízos e quadros de treinamento compulsivo. (BVS MS)
Setembro Amarelo amplia a conversa
Em setembro, quando a prevenção do suicídio recebe maior visibilidade, a discussão sobre saúde mental também pode incluir fatores cotidianos que favorecem bem-estar, vínculos sociais e autocuidado.
A campanha Setembro Amarelo é promovida nacionalmente com participação da Associação Brasileira de Psiquiatria e do Conselho Federal de Medicina e mantém materiais específicos para 2026. (ABP)
Nesse contexto, atividade física pode integrar uma rotina de cuidado, mas não deve ser apresentada como solução isolada para sofrimento psíquico ou comportamento suicida.
“O esporte é um caminho para o bem-estar, é um caminho para compartilhar a vida, compartilhar alegria, conhecer pessoas novas, criar hábitos de vida saudável”, conclui Andrea.
Para quem atravessa sofrimento emocional, procurar ajuda continua sendo fundamental. O Sistema Único de Saúde oferece atendimento por meio das Unidades Básicas de Saúde, CAPS, UPAs e hospitais. O Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em situações de urgência ou emergência, o SAMU pode ser acionado pelo 192. (Serviços e Informações do Brasil)
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