Tendência do skinimalismo propõe rotinas mais simples enquanto especialista alerta que mistura indiscriminada de ativos pode provocar irritação, ressecamento e sensibilização da pele

Skinimalismo ganha espaço no mercado de beleza ao propor uma mudança na lógica de que uma rotina eficiente de skincare precisa reunir inúmeros produtos, etapas e ativos. Em um país que ocupa a terceira posição mundial no consumo de beleza e cuidados pessoais, a tendência coloca no centro da discussão a escolha consciente dos cosméticos e a necessidade de considerar as características individuais de cada pele.
O movimento aparece como contraponto às extensas rotinas de skincare disseminadas principalmente pelas redes sociais, onde combinações de ácidos, séruns, antioxidantes, hidratantes e outros produtos são frequentemente reproduzidas sem uma avaliação das necessidades específicas de quem utiliza.

Para a biomédica esteta e especialista em Saúde e Estética Avançada Eliane Gonçalves, o acesso a um número cada vez maior de produtos trouxe possibilidades de cuidado, mas também aumentou o risco de uso indiscriminado.
“Hoje temos uma variedade enorme de produtos, ativos e tecnologias disponíveis. Isso é positivo, mas também pode levar ao excesso. É importante entender que cada pele possui necessidades diferentes e que combinar muitos produtos sem orientação pode provocar sensibilização, ressecamento, irritação e comprometimento da barreira cutânea”, explica.

A preocupação ocorre em um mercado de grandes proporções. Dados da Euromonitor referentes a 2024 colocam o Brasil como o terceiro maior mercado consumidor de Beleza e Cuidados Pessoais do mundo, atrás apenas de Estados Unidos e China. O país movimentou US$ 37,4 bilhões e respondeu por 5,8% do mercado mundial. Na América Latina, concentrou 43,4% do consumo da região.
O ritmo de novidades também ajuda a explicar a quantidade de produtos disputando espaço nas rotinas dos consumidores. Em 2025, foram registrados 7.359 lançamentos no Brasil em categorias que incluem maquiagem, cuidados com pele e cabelos, sabonetes, produtos para banho e perfumaria. Com o resultado, o país apareceu como o quarto que mais lançou produtos de beleza e cuidados pessoais no mundo.
Menos etapas, mais critério

Na prática, o skinimalismo não significa abandonar o skincare. A proposta é reduzir excessos e concentrar a rotina em produtos que tenham função definida e sejam compatíveis com as necessidades da pele.
A simplificação também encontra respaldo na preocupação com irritações provocadas pelo acúmulo de produtos. Especialistas em dermatologia alertam que alguns ativos, especialmente quando utilizados inadequadamente ou em peles sensibilizadas, podem causar vermelhidão, ressecamento e irritação. Retinoides e ácidos esfoliantes, por exemplo, exigem atenção na introdução e na frequência de uso.
Para Eliane Gonçalves, um dos problemas está na reprodução automática das tendências vistas nas redes sociais.
“As redes sociais aceleraram o acesso às informações e às tendências de beleza. O problema é quando uma rotina que funciona para uma pessoa é reproduzida por outra sem considerar tipo de pele, sensibilidade, idade, histórico e necessidades específicas. O skincare precisa ser individualizado e personalizado”, afirma.
Trocar constantemente de produtos, buscar resultados imediatos e testar simultaneamente diferentes ativos também pode dificultar a identificação do que provocou eventual reação na pele.
A Academia Americana de Dermatologia recomenda, inclusive, cautela ao introduzir novos cosméticos e orienta a realização de teste em uma pequena área antes do uso mais amplo, principalmente para pessoas com histórico de sensibilidade.
Redes sociais influenciam escolhas
O crescimento do skinimalismo também reflete uma reação às rotinas complexas popularizadas nas plataformas digitais. Vídeos curtos e conteúdos de influenciadores aceleraram a circulação de tendências e transformaram determinados ingredientes em fenômenos de consumo.
O problema surge quando a popularidade de um produto passa a ser interpretada como indicação universal.
“A ideia do skinimalismo não é deixar de cuidar da pele, mas fazer escolhas mais conscientes. Uma rotina simples, consistente e adequada pode ser muito mais interessante do que utilizar uma grande quantidade de produtos sem saber exatamente qual é a função de cada um”, destaca Eliane.
A lógica é semelhante à defendida por especialistas ao abordar rotinas simplificadas: aumentar o número de produtos não representa, automaticamente, aumento de benefícios e pode elevar a possibilidade de irritação quando diferentes fórmulas são acumuladas sem necessidade.
Atenção aos sinais da pele
Vermelhidão persistente, ardência, coceira, descamação, inflamação ou aparecimento de manchas não devem ser tratados apenas com a inclusão de novos cosméticos.
Eliane ressalta que alterações persistentes precisam ser avaliadas por profissional habilitado e que procedimentos ou cuidados estéticos não substituem avaliação médica quando existe suspeita de doença dermatológica ou de lesões que necessitem investigação.
Em um mercado no qual milhares de novidades chegam às prateleiras todos os anos, o desafio passa a ser menos acompanhar todos os lançamentos e mais identificar o que realmente faz sentido para cada pessoa.
É justamente aí que o skinimalismo encontra espaço: menos etapas por impulso, mais consistência e escolhas orientadas pelas necessidades reais da pele.
Sobre Eliane Gonçalves
Eliane Gonçalves é biomédica esteta, especialista em Saúde e Estética Avançada, esteticista e cosmetóloga graduada pela Universidade de Fortaleza (Unifor). Atua nas áreas de gerenciamento cutâneo, reabilitação linfática e assistência estética em oncologia, além de desenvolver atividades como docente e palestrante na área da saúde e estética.
Serviços
Orientação: pessoas com irritação persistente, inflamação, alterações recorrentes ou manchas suspeitas na pele devem procurar avaliação de profissional de saúde habilitado. Alterações dermatológicas e suspeitas de câncer de pele necessitam de avaliação médica.
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