Psicóloga Sarah Rebeca Barreto alerta que a ausência de diálogo sobre saúde masculina na adolescência fortalece tabus, afasta jovens dos consultórios e impacta a forma como homens lidam com prevenção, emoções e relacionamentos
A adolescência é uma das fases mais decisivas da vida. É nesse período que o corpo muda, a identidade ganha novas camadas, as dúvidas se multiplicam e a relação com a própria imagem começa a influenciar diretamente a autoestima, os vínculos afetivos e os comportamentos de cuidado. No entanto, quando o assunto é saúde masculina, essa etapa ainda costuma ser atravessada por silêncio, constrangimento e pouca orientação.
Enquanto a ida de meninas ao ginecologista durante a puberdade é tratada por muitas famílias como parte natural do desenvolvimento, meninos frequentemente passam pelas transformações biológicas da adolescência sem acompanhamento especializado, sem diálogo estruturado sobre o corpo e, muitas vezes, sem espaço seguro para perguntar sobre sexualidade, higiene íntima, crescimento, dores, inseguranças ou mudanças hormonais.
O resultado desse vazio aparece nos números. Levantamento da Sociedade Brasileira de Urologia, com base em dados do Sistema de Informações Ambulatoriais do Ministério da Saúde, aponta que o atendimento de meninos adolescentes ao urologista é cerca de 18 vezes menor que o de meninas da mesma faixa etária ao ginecologista. Em 2021, foram registrados 189.943 atendimentos femininos por ginecologistas entre adolescentes de 12 a 18 anos, contra 10.673 atendimentos masculinos por urologistas no mesmo recorte etário.
Para a psicóloga e neuropsicóloga Sarah Rebeca Barreto, esse cenário não pode ser tratado apenas como uma questão médica. Ele revela um problema cultural profundo, que começa na infância, atravessa a adolescência e se consolida na vida adulta.
Silêncio sobre o corpo masculino começa cedo
A resistência de muitos homens adultos em procurar atendimento médico costuma ser explicada por falta de tempo, medo, vergonha ou desinteresse. Mas, segundo Sarah Rebeca Barreto, essa postura não surge de forma repentina. Ela é construída aos poucos, quando meninos aprendem, direta ou indiretamente, que falar sobre o próprio corpo, admitir dúvidas ou reconhecer fragilidades pode ser interpretado como sinal de fraqueza.
“Quando a sociedade e as famílias não criam um lugar seguro para o menino olhar para o próprio corpo, fazer perguntas sem julgamentos e entender a própria saúde, estamos transmitindo a mensagem de que a vulnerabilidade não pertence a ele. Meninos crescem sob a falsa premissa de que precisam ‘se virar’ e que o corpo é apenas uma ferramenta de performance e força, nunca de zelo. Precisamos questionar essa lógica dentro de casa e mostrar ao filho que cuidar de si é uma demonstração de maturidade e coragem”, explica a especialista.
A fala da psicóloga toca em um ponto central do debate sobre saúde masculina: o cuidado ainda é, muitas vezes, apresentado aos meninos como algo secundário. Desde cedo, eles são incentivados a suportar dor, esconder inseguranças, evitar demonstrações emocionais e resolver sozinhos questões que poderiam ser acolhidas com orientação familiar, pedagógica ou clínica.
Essa lógica cria uma espécie de abandono simbólico. O adolescente pode estar rodeado de adultos, mas permanece sozinho diante das próprias dúvidas. Não sabe se determinada mudança corporal é esperada, não entende sinais do próprio desenvolvimento e pode buscar respostas em fontes pouco confiáveis, como conversas entre colegas, vídeos sem base técnica ou conteúdos aleatórios da internet.
Diferença entre meninas e meninos expõe desigualdade no cuidado
A comparação entre o acompanhamento ginecológico das meninas e a baixa procura dos meninos por atendimento urológico evidencia uma assimetria importante na educação para a saúde. Para muitas adolescentes, a puberdade vem acompanhada de explicações sobre menstruação, ciclo hormonal, métodos contraceptivos, prevenção de infecções e necessidade de consultas periódicas. Ainda que existam desafios e desigualdades nesse acesso, o tema costuma ser reconhecido pelas famílias como parte do desenvolvimento feminino.
Entre os meninos, a realidade tende a ser diferente. Assuntos como higiene íntima, fimose, varicocele, desenvolvimento genital, fertilidade futura, infecções sexualmente transmissíveis, vacinação contra HPV, uso correto do preservativo e saúde reprodutiva ainda são tratados com desconforto. Em muitos lares, simplesmente não são tratados.
Esse silêncio não elimina as dúvidas. Apenas desloca o adolescente para espaços menos seguros de informação. A falta de orientação pode afetar a prevenção, atrasar diagnósticos, aumentar constrangimentos e fortalecer a ideia de que o homem só deve procurar ajuda quando a dor ou o problema já se tornaram graves.
Na prática, a ausência de cuidado preventivo na adolescência pode alimentar o comportamento que depois aparece na fase adulta: homens que evitam consultas, negligenciam sintomas, interrompem tratamentos ou só chegam ao serviço de saúde por insistência de familiares.
Saúde física também passa pela saúde emocional
O alerta de Sarah Rebeca Barreto amplia o debate para além da consulta médica. Segundo a neuropsicóloga, aprender sobre o próprio corpo também influencia a forma como o adolescente lida com emoções, limites, vulnerabilidade e relações interpessoais.

“O menino que aprende sobre o próprio corpo aprende, por consequência, a respeitar o corpo do outro. Quando o jovem compreende o que é uma mudança hormonal, o que é um desconforto e o que significa estar vulnerável, ele desenvolve a capacidade de se colocar no lugar do parceiro. Isso transforma profundamente a forma como ele vai se relacionar, a maneira como acolherá e compreenderá um ‘não’, e a forma como encarará suas primeiras experiências afetivas”, reforça.
A observação é especialmente relevante em uma fase marcada por descobertas afetivas e sexuais. Quando o adolescente tem acesso a informações adequadas, ele pode desenvolver uma relação menos ansiosa e menos distorcida com o próprio corpo. Também passa a compreender consentimento, autocuidado, responsabilidade e respeito como dimensões inseparáveis da saúde.
Nesse sentido, o cuidado médico não deve ser visto apenas como resposta a sintomas. Ele também funciona como porta de entrada para orientação, prevenção e educação. Uma consulta bem conduzida pode ajudar o jovem a entender mudanças normais da puberdade, reconhecer sinais de alerta, tirar dúvidas sem julgamento e construir uma visão menos agressiva e menos performática sobre masculinidade.
Masculinidade, vulnerabilidade e prevenção
A cultura do “se vira”, citada pela especialista, ainda pesa sobre muitos meninos. Ela aparece em frases comuns, em cobranças por resistência emocional, na minimização da dor e na dificuldade de adultos conversarem com naturalidade sobre o corpo masculino. O adolescente, então, aprende que ser homem significa aguentar calado.
Esse modelo tem consequências. Ao negar vulnerabilidade, também se reduz a capacidade de pedir ajuda. Ao tratar o corpo apenas como instrumento de força ou desempenho, perde-se a noção de cuidado contínuo. Ao transformar dúvidas em vergonha, cria-se uma barreira entre o jovem e os profissionais que poderiam orientá-lo.
A mudança passa por uma nova postura das famílias, das escolas e dos serviços de saúde. Pais e responsáveis não precisam esperar que o adolescente traga espontaneamente todas as perguntas. Em muitos casos, ele não trará. O constrangimento pode ser maior que a dúvida. Por isso, a iniciativa precisa partir também dos adultos.
Conversas simples, objetivas e respeitosas podem abrir caminhos. Perguntar se o adolescente tem dúvidas sobre o corpo, explicar que consultas preventivas fazem parte do desenvolvimento e normalizar o acompanhamento médico são atitudes que ajudam a romper o ciclo de silêncio.
Responsabilidade deve ser compartilhada
Para Sarah Rebeca Barreto, a transformação não pode ser atribuída a um único agente. A escola, a família, os médicos, os psicólogos e a sociedade precisam atuar de forma articulada para que o cuidado com a saúde masculina deixe de ser exceção e passe a fazer parte da formação dos meninos.
“Não podemos delegar essa função de forma isolada à escola, aos pais ou aos urologistas. É uma demanda cultural abrangente. Se temos um jovem em fase de crescimento, não devemos esperar que ele venha até nós com as perguntas, pois o silêncio e o constrangimento costumam ser a regra imposta a eles pela cultura do ‘se vira’. Devemos nos antecipar, oferecendo as respostas, legitimando as angústias e abrindo caminhos concretos de acolhimento clínico e emocional. Ocupar esse espaço com urgência é o único meio de formar homens mais saudáveis e emocionalmente responsáveis”, conclui Sarah Rebeca Barreto.
A reflexão aponta para uma mudança necessária: cuidar da saúde dos meninos não é apenas prevenir doenças. É formar adultos mais atentos ao próprio corpo, mais abertos ao diálogo, mais responsáveis nos relacionamentos e menos reféns de uma masculinidade baseada no silêncio.
Serviço
Famílias com adolescentes do sexo masculino podem buscar orientação inicial com pediatras, hebiatras, médicos de família, clínicos gerais ou urologistas, especialmente diante de dúvidas sobre desenvolvimento corporal, higiene íntima, dor, alterações genitais, puberdade, vacinação, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis e saúde sexual.
O acompanhamento psicológico também pode ser indicado quando o adolescente apresenta vergonha intensa, isolamento, sofrimento emocional, dificuldade de falar sobre o corpo, ansiedade relacionada à sexualidade ou conflitos familiares ligados ao desenvolvimento.
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