Dr. Victor Camarão explica que ajustes na composição corporal, quando feitos com estratégia, podem melhorar eficiência, recuperação e evolução de corredores sem comprometer massa muscular
A corrida de rua segue em forte crescimento no Brasil e tem atraído tanto iniciantes quanto atletas amadores em busca de saúde, desempenho e qualidade de vida. Levantamento “Por Dentro do Corre”, divulgado em 2026, apontou que o país chegou a cerca de 15 milhões de praticantes semanais, com aumento de 2 milhões de corredores em 2025. Nesse cenário, a evolução costuma ser associada ao aumento de quilometragem, ritmo e constância nos treinos, mas outro fator tem ganhado atenção entre especialistas: a composição corporal.
De acordo com o médico Dr. Victor Camarão, que também é corredor, o peso corporal interfere diretamente na eficiência do movimento, no gasto energético e na sobrecarga sobre articulações. Segundo ele, o tema precisa ser tratado sem extremismos e sem foco apenas na estética.
“Não se trata de pesar menos por uma questão visual. O objetivo é fazer o corpo render mais. Quando conseguimos melhorar a composição corporal de forma inteligente, preservando massa muscular e reduzindo excesso de gordura, o corredor ganha eficiência, reduz o desgaste físico e melhora sua capacidade de recuperação”, explica.
Na prática, cada passada durante a corrida gera impacto elevado sobre o corpo. Dr. Victor Camarão destaca que esse impacto pode equivaler a duas ou até três vezes o peso corporal. Assim, uma pessoa com 80 quilos pode submeter joelhos, quadris, tornozelos e coluna a cargas entre 160 e 240 quilos a cada passo, repetidas milhares de vezes ao longo de treinos e provas.
“Boa parte das dores recorrentes em corredores não está relacionada apenas à idade ou à genética. Muitas vezes, existe um excesso de carga sendo repetido diariamente sobre estruturas que já estão trabalhando no limite”, afirma o médico.
Além do impacto mecânico, o peso corporal também interfere no consumo de energia. Quanto maior a massa que o organismo precisa deslocar, maior tende a ser o esforço para sustentar o mesmo ritmo. Estudos sobre economia de corrida indicam que o suporte do peso corporal e a propulsão representam parcela importante da demanda metabólica da corrida, o que ajuda a explicar por que pequenas mudanças na composição corporal podem influenciar o desempenho.
Segundo Dr. Victor Camarão, cada quilo eliminado de forma saudável pode favorecer melhora na economia de corrida, além de contribuir para ganhos de velocidade, resistência e recuperação. O ponto central, reforça o médico, é que essa redução não pode acontecer à custa de massa muscular ou de queda na qualidade nutricional.
“O erro de muitos corredores é tentar emagrecer rápido demais. Dietas extremamente restritivas levam à perda de massa muscular, comprometem a recuperação e reduzem a performance. O corredor precisa entender que emagrecer não é passar fome. É aplicar estratégia”, ressalta.
Entre as recomendações para quem deseja reduzir peso sem prejudicar o desempenho estão déficit calórico leve a moderado, ingestão adequada de proteínas, fortalecimento muscular regular, progressão gradual dos treinos e acompanhamento profissional. Evidências em nutrição esportiva apontam que maior ingestão proteica, associada ao exercício, pode ajudar na preservação de massa magra durante períodos de restrição energética.
“A proteína ajuda a preservar massa magra, acelera a recuperação e protege a musculatura durante o emagrecimento. Quando isso não acontece, a pessoa perde peso na balança, mas também perde potência, resistência e capacidade de desempenho”, explica Dr. Victor Camarão.
Outro ponto destacado pelo médico é a recuperação. Sono de qualidade, descanso adequado e controle do estresse fazem parte da evolução esportiva, especialmente em corredores que treinam com frequência. Para ele, o objetivo não deve ser apenas reduzir números na balança, mas construir um corpo mais eficiente para correr.
“O foco precisa estar na construção de um atleta mais eficiente. Isso envolve fortalecimento muscular, treino aeróbico bem estruturado, alimentação adequada e acompanhamento multidisciplinar. Quando esses fatores trabalham juntos, transformamos peso em performance sem extremismos”, conclui.
Entre as principais orientações para corredores estão evitar dietas radicais, manter déficit calórico planejado, priorizar proteínas, investir em fortalecimento muscular, utilizar tênis adequado ao perfil biomecânico, respeitar a evolução gradual dos treinos, cuidar do sono e procurar avaliação profissional em caso de dores persistentes.





