Uso de implantes manipulados com anabolizantes ou hormônios androgênicos segue proibido para fins estéticos, ganho muscular e desempenho esportivo; médico alerta para banalização dos hormônios
A popularização do chamado “chip da beleza” nas redes sociais continua exigindo atenção de pacientes e profissionais de saúde. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária mantém proibidos a comercialização e o uso de implantes hormonais manipulados à base de esteroides anabolizantes ou hormônios androgênicos quando destinados a fins estéticos, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho esportivo.
Apesar do nome pelo qual o procedimento se tornou conhecido, esses implantes envolvem substâncias que provocam alterações no organismo e estão submetidas a regras específicas de prescrição, manipulação e acompanhamento.
Para o médico Victor Camarão, a popularização dos hormônios como recurso para transformação corporal pode fazer com que pacientes deixem de considerar os riscos associados ao tratamento.
“O nome ‘chip da beleza’ acaba passando uma percepção de facilidade e até de inocuidade, quando estamos falando de substâncias que provocam efeitos no organismo. Hormônio não deve ser tratado como recurso estético ou como um atalho para ganhar massa muscular e melhorar performance. Existe uma diferença muito importante entre tratar uma condição clínica devidamente diagnosticada e utilizar hormônios sem uma necessidade médica estabelecida”, afirma.
Indicação clínica segue regras específicas
A restrição não significa que todo implante hormonal seja proibido no Brasil. Nos casos em que existe indicação clínica para uma formulação manipulada, a Anvisa determina critérios específicos para prescrição e acompanhamento.
A receita deve ser emitida por médico legalmente habilitado, em receituário de controle especial, e conter o CID correspondente à condição clínica tratada. O paciente também deve receber informações sobre os riscos e participar da assinatura de um Termo de Responsabilidade e Esclarecimento, juntamente com o prescritor e o responsável técnico pela farmácia de manipulação.
A formulação manipulada deve ser considerada quando o profissional avaliar que os medicamentos registrados e disponíveis no mercado não atendem às necessidades específicas daquele paciente. As farmácias também estão submetidas a exigências de controle e registro da manipulação desses produtos.
Riscos vão além da estética
A Anvisa já alertou que o uso de implantes hormonais manipulados para estética e desempenho pode provocar consequências importantes à saúde. Entre as complicações relatadas estão alterações nos níveis de colesterol e triglicerídeos, hipertensão arterial, arritmias e acidente vascular cerebral.
Também podem ocorrer acne, queda de cabelo, crescimento excessivo de pelos em mulheres, alteração da voz, insônia e agitação. A Agência afirma ainda que implantes popularmente chamados de “chips da beleza” não possuem registro para finalidade estética.
Em agosto de 2026, a Anvisa voltou ao tema ao combater informações difundidas nas redes sociais sobre reposição de testosterona em mulheres. Segundo a Agência, o tratamento hormonal não é uma necessidade universal e deve depender de avaliação individual, sintomas, exames, histórico clínico e evidências científicas.
Para Victor Camarão, promessas de resultados rápidos devem funcionar como um sinal de alerta.
“Antes de qualquer intervenção hormonal, é preciso entender por que aquela substância está sendo indicada, qual condição está sendo tratada, quais são os possíveis riscos e como será feito o acompanhamento. Se a promessa está centrada apenas em estética, ganho muscular ou performance, o paciente precisa ter ainda mais cautela”, afirma.
Segundo o médico, decisões envolvendo hormônios precisam partir de avaliação individualizada e indicação clínica, e não de tendências disseminadas nas redes sociais.
Implantes registrados não foram proibidos
As medidas adotadas pela Anvisa não alteraram as regras para implantes hormonais que já possuem registro na Agência e são utilizados de acordo com as indicações aprovadas.
É o caso do implante de etonogestrel utilizado como contraceptivo, que permanece autorizado dentro de sua indicação.
Para quem considera um tratamento hormonal, a recomendação é compreender qual condição clínica justifica a indicação, discutir riscos e benefícios com o profissional responsável e desconfiar de procedimentos apresentados principalmente como caminho rápido para transformação estética, ganho de músculos ou melhora da performance.
Serviço
Orientação ao paciente
Tratamentos hormonais devem ser realizados após avaliação médica individualizada. Pacientes que apresentarem reações associadas ao uso de implantes hormonais devem procurar assistência médica.
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