Caso recente em academia de Fortaleza reacende discussão sobre prevenção cardiovascular; Brasil registra mais de 320 mil mortes súbitas por ano
A morte súbita voltou ao centro das discussões sobre segurança durante a prática de exercícios físicos após um homem de 55 anos morrer depois de passar mal durante um treino em uma academia no bairro Dom Lustosa, em Fortaleza, no dia 14 de setembro. A causa do óbito ainda dependia de conclusão pericial nas informações divulgadas pelas autoridades sobre o caso.
O episódio chama atenção para um problema de grandes proporções. Segundo dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas, a SOBRAC, o Brasil registra mais de 320 mil mortes súbitas por ano.
Para o cardiologista clínico e intervencionista Mateus Feitosa, a ocorrência reforça a importância de avaliar as condições cardiovasculares antes de iniciar ou aumentar significativamente a intensidade de uma rotina de exercícios.
“O esforço de alta intensidade atua como um gatilho para eventos cardiovasculares agudos em indivíduos com condições cardíacas assintomáticas ou não diagnosticadas”, alerta o especialista.
Avaliação pode identificar fatores de risco
A Avaliação Pré-Participação, conhecida pela sigla APP, é utilizada para identificar condições que possam representar risco durante atividades físicas, principalmente em pessoas que pretendem realizar exercícios de intensidade moderada ou elevada.
Diretrizes brasileiras de cardiologia do esporte recomendam que essa avaliação considere inicialmente histórico clínico e exame físico. A necessidade de exames complementares deve ser definida individualmente, considerando fatores como idade, sintomas, histórico familiar, condições de saúde, intensidade do treinamento e modalidade praticada.
A avaliação não diminui a importância do exercício para a saúde. A prática regular de atividade física é um dos pilares da prevenção cardiovascular. O objetivo é justamente tornar a atividade mais segura, especialmente para pessoas com fatores de risco ou doenças ainda não diagnosticadas.
Entre os sinais que exigem atenção estão dor ou sensação de pressão no peito, palpitações, tontura, desmaio e falta de ar desproporcional ao esforço. Diante desses sintomas, a orientação é interromper a atividade e procurar avaliação médica.
Atendimento rápido pode fazer diferença
Além da prevenção, o tempo de resposta diante de uma parada cardiorrespiratória é decisivo. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia apontam que, em eventos arrítmicos súbitos sem desfibrilação, a probabilidade de sobrevivência pode diminuir entre 7% e 10% a cada minuto transcorrido.
O reconhecimento rápido da emergência, o acionamento do serviço de socorro, o início das manobras de ressuscitação cardiopulmonar e o uso precoce do Desfibrilador Externo Automático, o DEA, integram os principais passos para aumentar as chances de sobrevivência.
No caso registrado no Dom Lustosa, houve tentativa de reanimação e utilização de desfibrilador durante o atendimento, mas a vítima não resistiu.
Academias de Fortaleza recebem novas exigências
O episódio também provocou desdobramentos na capital cearense. Em 17 de setembro, o Programa Estadual de Proteção e Defesa do Consumidor, Decon, do Ministério Público do Ceará, determinou que academias e estabelecimentos de condicionamento físico de Fortaleza adotassem imediatamente medidas preventivas para aumentar a segurança dos usuários.
Entre as determinações estão avaliação prévia dos alunos para identificação de fatores de risco ou restrições, acompanhamento por profissionais de educação física habilitados, manutenção dos registros das avaliações e adoção de protocolos de emergência e primeiros socorros.
O Decon também determinou treinamento das equipes para situações de emergência e disponibilidade dos equipamentos necessários ao atendimento inicial, incluindo desfibriladores. As exigências valem ainda para usuários que acessam academias por plataformas intermediadoras.
Para Mateus Feitosa, prevenção e resposta rápida precisam caminhar juntas. Identificar riscos antes da prática esportiva e garantir estrutura adequada para situações de emergência são medidas que podem reduzir a exposição a eventos graves durante os exercícios.
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