Projeto que transforma plantas aquáticas em biomassa avança para programa de pesquisa e desenvolvimento da companhia, enquanto parceria com universidade já acumula resultados com inteligência artificial
A Cimento Apodi está ampliando a aproximação entre indústria e universidade no Ceará para transformar desafios reais da produção em projetos de inovação. A estratégia conecta pesquisadores e estudantes às demandas das fábricas e busca fazer com que soluções desenvolvidas no ambiente acadêmico avancem para testes, aplicações industriais e, em alguns casos, novas oportunidades de negócio.
Um dos exemplos mais recentes é o Ecolenha, projeto escolhido entre as propostas apresentadas por meio de uma iniciativa conjunta da companhia com a UFC Inova. A solução foi selecionada durante o III Congresso Apodi de Sustentabilidade e ESG, realizado em agosto, e deve avançar para o Programa de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa.
A próxima etapa envolve a construção de um plano de negócios e avaliações de viabilidade técnica e financeira.
Cimento Apodi aposta em biomassa
O Ecolenha propõe utilizar plantas aquáticas invasoras, entre elas o aguapé e a taboa, como matéria-prima para a produção de briquetes de biomassa.
A ideia é transformar esse material vegetal em combustível sólido com potencial de substituir parcialmente a lenha convencional e outras fontes utilizadas nos processos industriais.
Na prática, a proposta reúne dois desafios ambientais. De um lado, busca dar destinação produtiva a espécies aquáticas que podem se proliferar de forma descontrolada. Do outro, procura ampliar alternativas energéticas de menor impacto para uma atividade industrial que tem a descarbonização entre seus principais desafios.
A escolha do projeto também evidencia uma mudança na forma como grandes empresas podem buscar inovação. Em vez de recorrer apenas a tecnologias prontas disponíveis no mercado, a indústria passa a apresentar seus próprios problemas para universidades e pesquisadores.
“O que queremos é aproximar cada vez mais a pergunta da indústria da capacidade de resposta da academia. Quando colocamos um desafio real diante de estudantes e pesquisadores, criamos um ambiente em que o conhecimento pode ser testado, aprimorado e transformado em uma solução”, afirma Hilberto Feitosa, diretor Industrial da Cimento Apodi.
Parceria com UFC já chegou às fábricas
A aproximação entre a Cimento Apodi e a Universidade Federal do Ceará não começou com o Ecolenha.
Em 2019, uma parceria envolvendo a companhia e o campus da UFC em Russas reuniu engenheiros da empresa e estudantes das áreas de Engenharia de Software, Ciências da Computação e Engenharia de Produção em torno de um problema da unidade do Pecém.
O desafio era tornar mais eficiente a operação de um moinho de cimento.
Ao longo de 12 meses, o grupo trabalhou no desenvolvimento de uma solução baseada em inteligência artificial, com participação também da área de tecnologia do Grupo Titan, acionista da Apodi.
O sistema passou por atualizações e atualmente consegue analisar 276 variáveis do processo industrial e processar mais de 2 milhões de combinações a cada 30 segundos para identificar configurações mais eficientes de operação.
A tecnologia posteriormente chegou aos moinhos de Quixeré.
IA elevou produtividade em até 13%
Os números apresentados pela companhia mostram como um projeto desenvolvido a partir da interação entre universidade e indústria pode ultrapassar a fase experimental.
Segundo a Cimento Apodi, a aplicação da inteligência artificial contribuiu para um aumento de até 13% na produtividade dos moinhos e para um crescimento de até 10% na capacidade instalada.
A empresa também aponta redução de custos de produção e do consumo de recursos como energia, água e combustíveis fósseis, além de impactos sobre as emissões de gases de efeito estufa.
Para Gerson Ribeiro, coordenador de Automação e Digitalização da Cimento Apodi, a tecnologia também modifica a atuação dos profissionais dentro da fábrica.
“A inteligência artificial aprende com o passar do tempo e melhora sua performance quando é treinada. Com isso, os profissionais passam a atuar de maneira mais analítica, acompanhando os dados, avaliando os resultados e contribuindo para a evolução contínua da tecnologia e da produção”, explica.
Cimento Apodi investe em digitalização
A inteligência artificial faz parte de um movimento mais amplo de modernização da companhia.
Nos últimos dois anos, a Cimento Apodi afirma ter destinado mais de R$ 6 milhões para digitalização e inteligência artificial dentro do programa Apodi 4.0.
Entre os projetos estão sistemas de visão computacional voltados à prevenção de riscos, ferramentas de inteligência artificial para previsão da resistência do cimento e virtualização de sistemas industriais.
Ao transformar fábricas em ambientes de experimentação tecnológica, a companhia também abre espaço para que estudantes tenham contato com dados, processos e problemas dificilmente reproduzidos integralmente em laboratórios universitários.
A estratégia fortalece ainda uma discussão que ultrapassa a própria indústria cimenteira: como pesquisas produzidas nas universidades podem encontrar caminhos para chegar ao mercado.
Pesquisa pode virar novo negócio
Para a Cimento Apodi, a conexão entre setor produtivo e academia pode criar uma cadeia que começa com uma necessidade industrial, passa pelo desenvolvimento científico e pode terminar em uma tecnologia com aplicações comerciais mais amplas.
Nesse cenário, projetos como o Ecolenha funcionam não apenas como possíveis soluções ambientais, mas como oportunidades para validar tecnologias em escala industrial.
“O Ceará tem conhecimento, universidades, pesquisadores, estudantes e uma indústria com desafios concretos. Quando essas pontas se encontram, criamos um ambiente muito rico para inovação”, afirma Hilberto Feitosa.
A lógica é simples: um problema encontrado dentro de uma fábrica pode gerar uma pesquisa. A pesquisa pode se tornar uma solução. E uma solução validada pode, no futuro, abrir espaço para um novo produto, serviço ou negócio.
SERVIÇO
Cimento Apodi
Atuação: indústria de cimento e concreto
Unidades industriais no Ceará: Pecém e Quixeré
Programa de inovação: Apodi 4.0
Projeto selecionado: Ecolenha
Área: biomassa, sustentabilidade e descarbonização industrial
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