Conservação do tatu-bola avança com coleta de material genético no Cânion do Rio Poti; dados poderão orientar estratégias de proteção da espécie ameaçada na Caatinga

A conservação do tatu-bola ganhou novos dados científicos com uma expedição realizada no Parque Estadual do Cânion do Rio Poti, em Buriti dos Montes, no Piauí. Entre 1º e 6 de setembro, pesquisadores percorreram a unidade de conservação para localizar animais, coletar material biológico e ampliar o conhecimento sobre uma das espécies mais ameaçadas e emblemáticas da Caatinga.
Durante o trabalho de campo, cinco indivíduos de tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) foram encontrados. Os animais passaram por procedimentos de coleta de sangue, fezes, tecidos e ectoparasitas, além do registro de peso e outras medidas biométricas. Após o manejo, todos foram devolvidos aos mesmos locais onde haviam sido encontrados.
As informações deverão integrar um banco de dados voltado ao acompanhamento das populações da espécie. A intenção é analisar características como diversidade genética, parentesco entre indivíduos, possíveis níveis de endogamia e presença de agentes capazes de provocar doenças.
O tatu-bola é a única espécie de tatu endêmica do Brasil e ocorre principalmente na Caatinga, além de áreas do Cerrado. Na avaliação nacional, a espécie é classificada como Em Perigo, enquanto internacionalmente aparece como Vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza.
Conservação do tatu-bola passa pela genética

A análise das amostras coletadas pode ajudar pesquisadores a identificar diferenças entre populações e apontar grupos que necessitam de ações mais urgentes de conservação.
Segundo a veterinária Maíra Prestes, do Instituto Tamanduá, o material permitirá desenvolver estudos de genética populacional e também manter registros que poderão ser utilizados no futuro para investigar eventuais alterações na saúde dos animais.
O banco biológico funciona ainda como uma espécie de registro histórico das condições encontradas atualmente. Caso uma população apresente declínio nos próximos anos, pesquisadores poderão comparar novas amostras com o material armazenado e investigar a possível presença de patógenos.
Para Samuel Portela, coordenador de conservação da biodiversidade da Associação Caatinga, a produção dessas informações permite transformar os levantamentos científicos em decisões de manejo.
“Não basta apenas registrar a presença da espécie; precisamos saber quais populações estão mais vulneráveis para agir no lugar certo”, afirma.
Pesquisa ajudou a proteger o Cânion do Rio Poti
A expedição dá continuidade a um trabalho iniciado na região em 2016, quando pesquisadores realizaram o primeiro grande levantamento sobre a presença do tatu-bola no Cânion do Rio Poti.
Os dados produzidos naquela etapa contribuíram para os estudos técnicos relacionados à criação do Parque Estadual do Cânion do Rio Poti, instituído em 2017. A unidade possui aproximadamente 24,8 mil hectares e protege áreas de Caatinga, formações geológicas, recursos hídricos, sítios arqueológicos e habitats utilizados por diferentes espécies da fauna.
Uma segunda expedição foi realizada em 2019, quando novos exemplares foram encontrados e analisados. O retorno em 2026 amplia a série de informações disponíveis para acompanhar a situação do tatu-bola ao longo dos anos.
A localização do parque também amplia a relevância da pesquisa para o Ceará. A região do Rio Poti está conectada a áreas protegidas cearenses, entre elas unidades situadas no entorno do cânion e a Reserva Natural Serra das Almas, em Crateús, onde também existem registros da espécie.
Esse conjunto de territórios protegidos contribui para preservar habitats e ampliar a conectividade necessária ao deslocamento e à manutenção das populações da fauna nativa.
Trabalho integra plano nacional
A ação faz parte do projeto No Clima da Caatinga, realizado pela Associação Caatinga em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental. O trabalho de campo contou com profissionais do Instituto Tamanduá e apoio do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros, vinculado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
A pesquisa também está ligada ao PAN Tamanduá e Tatus, plano nacional coordenado pelo ICMBio. Em seu ciclo 2026-2031, a estratégia contempla quatro espécies ameaçadas, entre elas o tatu-bola, e busca reduzir as principais ameaças enfrentadas por esses animais nos próximos cinco anos.
Criado em 2011, o No Clima da Caatinga desenvolve iniciativas de conservação da biodiversidade, proteção de recursos naturais e adaptação de comunidades rurais aos efeitos das mudanças climáticas no semiárido.
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