Levantamento com 1.406 profissionais mostra que iniciativas de bem-estar e capacitação também estão entre as primeiras a perder espaço quando aumenta a pressão por resultados
A pressão por resultados está colocando à prova a cultura dentro das empresas brasileiras. Pesquisa realizada pelo Instituto QualiBest para o iFood mostra que 41% dos profissionais em cargos de liderança admitem abrir mão de pontos importantes da cultura organizacional para atingir metas.

O levantamento “Cultura na Prática” ouviu 1.406 profissionais de empresas com mais de 100 funcionários em diferentes regiões do Brasil. Entre os entrevistados, 809 exerciam funções de liderança. Apesar de 89% reconhecerem que empresas com culturas fortes alcançam melhores resultados, 58% afirmam que a cultura está entre os primeiros aspectos a perder força quando aumenta a cobrança por desempenho.
Bem-estar e capacitação entram na rota dos cortes

A pressão também atinge iniciativas voltadas ao desenvolvimento das equipes. Entre os 600 diretores e gerentes participantes, 65% apontaram ações de bem-estar e capacitação entre as primeiras medidas cortadas quando o negócio enfrenta maior cobrança por resultados.
Para a advogada especialista em gestão Silvia Letícia, a questão não está na existência de metas, mas na forma como as organizações respondem à pressão para alcançá-las.
“O problema não está em cobrar resultados. O problema aparece quando, para atingir uma meta, a empresa começa a abrir mão justamente das práticas que sustentam o ambiente e a própria operação. Isso pode gerar resultado imediato, mas cobra um preço depois”, afirma.
Os números reforçam uma contradição dentro das organizações: ao mesmo tempo em que a cultura é reconhecida como relevante para o desempenho, parte das práticas associadas a ela perde prioridade justamente nos períodos em que as empresas enfrentam decisões mais difíceis.
Lideranças e equipes enxergam culturas diferentes
Outro recorte revela uma diferença significativa na forma como a cultura é percebida nos diferentes níveis hierárquicos. Apenas 36% dos profissionais que conhecem a cultura da própria empresa afirmam que ela é sempre praticada no cotidiano.
Entre diretores e profissionais C-level, 60% afirmam enxergar a cultura sendo praticada de forma constante. O percentual cai para 45% entre gerentes, 32% entre coordenadores e supervisores e chega a apenas 23% entre analistas e especialistas.
“Essa diferença de percepção é um sinal de alerta. Se a liderança entende que a cultura está funcionando, mas quem está na operação não enxerga isso, existe uma falha de gestão. Cultura não é o que está escrito nos valores da empresa; é o que acontece na prática, principalmente quando existe pressão”, explica Silvia.
O levantamento aponta ainda que seis em cada dez profissionais identificam a alta e a média gestão como os ambientes em que existe maior distância entre o discurso institucional e aquilo que efetivamente acontece no cotidiano.
Cultura também pesa na decisão de ficar ou sair
A forma como uma organização coloca seus valores em prática também passou a ter impacto nas escolhas profissionais. Para 79% dos entrevistados, a cultura influencia ou influenciaria uma decisão de carreira.
Além disso, 73% afirmam já ter tomado alguma decisão concreta motivada pela cultura de uma empresa, como permanecer no emprego, pedir demissão ou recusar uma oportunidade profissional.
Na avaliação de Silvia Letícia, aproximar cultura e estratégia é fundamental para evitar que os valores corporativos funcionem apenas como discurso institucional.
“Cultura precisa estar presente nas metas, nas decisões, na forma de liderar e na maneira como a empresa reconhece e desenvolve seus profissionais. Quando ela só aparece no discurso institucional, não existe coerência entre gestão e prática”, conclui.
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