Psicóloga Sarah Rebeca Barreto orienta famílias sobre ócio criativo, manejo do tédio, contato com a natureza e atenção à alimentação durante o recesso escolar
O período de férias escolares costuma alterar a dinâmica das famílias e trazer uma pergunta recorrente para pais e responsáveis: como organizar o tempo livre das crianças e adolescentes sem transformar o recesso em uma agenda cheia de obrigações? Para especialistas, a pausa nas atividades escolares deve ser compreendida como uma oportunidade de descanso, reconexão familiar e desenvolvimento emocional.
A psicóloga e neuropsicóloga Sarah Rebeca Barreto explica que o chamado ócio criativo tem papel importante no desenvolvimento cognitivo e emocional. Em vez de preencher todos os horários com atividades estruturadas, a orientação é permitir que crianças e adolescentes tenham tempo livre, contato com ambientes externos e experiências que estimulem autonomia, imaginação e convivência.
“O contato com parques, praias e a natureza de forma geral estimula a criatividade e a autonomia que o ambiente acadêmico ou as telas muitas vezes limitam. É um momento propício para reduzir o tempo diante de smartphones, tablets e televisões, um consumo que, neste período, exige atenção redobrada dos pais quanto ao conteúdo e limites de uso”, afirma a profissional.
A preocupação com o uso de telas também aparece em recomendações de entidades de saúde. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta que crianças menores de 2 anos não sejam expostas às telas, enquanto faixas etárias maiores devem ter limites progressivos, sempre com supervisão dos responsáveis. A entidade também recomenda evitar telas durante as refeições e desconectar os aparelhos uma a duas horas antes de dormir.
O tema ganha ainda mais relevância durante as férias porque, com mais tempo em casa, o consumo de celulares, tablets, videogames e televisão tende a aumentar. O Guia sobre Uso de Dispositivos Digitais por Crianças e Adolescentes, do Governo Federal, reforça que os hábitos digitais começam a ser formados na primeira infância e que o uso excessivo pode interferir na qualidade da interação entre crianças e cuidadores.
Uma das principais queixas dos pais no período é a reclamação constante de tédio. Segundo Sarah Rebeca, esse sentimento não precisa ser tratado como um problema a ser resolvido imediatamente com novas distrações, especialmente digitais. Para a especialista, lidar com momentos de menor estímulo também faz parte do amadurecimento emocional.
“É natural que as crianças reclamem por não terem o que fazer, pois a rotina escolar é altamente estruturada. Os pais precisam normalizar esse período de menos demandas. O tédio é, muitas vezes, o gatilho necessário para que a criança desenvolva novas formas de brincar e pensar por conta própria. O foco deve ser a qualidade das interações, e não a quantidade de atividades”, esclarece.
A recomendação é que as famílias busquem um equilíbrio entre descanso, brincadeiras, convivência e pequenas tarefas de rotina. Atividades simples, como passeios ao ar livre, leitura, jogos, conversas, preparo de alimentos e brincadeiras sem mediação de telas, podem contribuir para um período de férias mais saudável e afetivo.
A Organização Pan-Americana da Saúde e a Organização Mundial da Saúde também destacam a importância de substituir parte do tempo sedentário em frente às telas por jogos ativos, leitura, contação de histórias, música e outras interações com cuidadores, especialmente nos primeiros anos de vida.
Outro ponto que merece atenção é a alimentação. Com a permanência prolongada em casa, é comum que crianças e adolescentes peçam lanches com mais frequência ou confundam ansiedade, desocupação e vontade de beliscar com fome real. Para Sarah Rebeca, o período pode ser usado como oportunidade de diálogo, sem rigidez excessiva, mas com organização.
A especialista orienta que os responsáveis mantenham as principais refeições, observem mudanças no comportamento alimentar e envolvam os filhos em atividades ligadas ao preparo dos alimentos. A participação na cozinha, quando feita com segurança e supervisão, pode ajudar crianças e adolescentes a compreenderem melhor suas escolhas e desenvolverem uma relação mais consciente com a alimentação.
O descanso também deve ser preservado. Embora as férias permitam maior flexibilidade, a desorganização extrema da rotina pode dificultar o retorno às aulas. Horários de sono muito irregulares, excesso de telas à noite e ausência completa de limites podem impactar o humor, a disposição e a readaptação escolar.
“Um período de férias bem aproveitado, respeitando o tempo de descanso e o convívio familiar, faz bem à saúde mental e recarrega as energias necessárias para o segundo semestre nas escolas. O retorno às aulas ocorre de forma mais fluida quando o cérebro teve a oportunidade de vivenciar momentos de relaxamento autêntico”, conclui Sarah Rebeca Barreto.





