Exposição gratuita transforma memórias reais em versos e xilogravuras, reúne 13 personagens do Ceará e propõe uma experiência que conecta literatura, oralidade, educação e cultura popular.

Trinta histórias reais deixarão o formato tradicional dos relatos biográficos para ganhar rima, métrica, imagens e a linguagem de uma das expressões mais reconhecidas da cultura popular brasileira. A exposição Vidas em Cordel chega a Fortaleza no dia 15 de outubro, ocupando a Multigaleria do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura até 19 de dezembro, com acesso gratuito.
Realizada pelo Museu da Pessoa, a mostra transforma trajetórias preservadas em seu acervo em literatura de cordel e xilogravuras. Mais do que apresentar biografias, a proposta coloca vidas comuns e personagens de diferentes territórios no centro de uma experiência construída a partir da memória e da maneira como cada pessoa percebe e narra a própria existência.
Fortaleza ganha um peso particular dentro desse recorte. Das 30 histórias cordelizadas, 13 são de cearenses, o equivalente a mais de 40% das trajetórias que compõem a exposição.
Entre os nomes estão Geraldo Amâncio, Mestre Júlio Santos, Maria da Penha, Ivânia Maria Alencar, Francisco Edmísio, Klévisson Viana, Rouxinol do Rinaré, Julie Oliveira, Ivonete Morais, Paulo de Tarso, Manoel Inácio, Maercio Siqueira e Luciana Costa.
A presença expressiva de personagens ligados ao Ceará cria uma relação direta entre a proposta nacional da exposição e o território onde ela será apresentada. Em vez de observar apenas histórias distantes, o visitante encontrará experiências associadas ao próprio estado e a diferentes dimensões da vida, da cultura e da memória cearense.
Quando uma vida vira literatura

A exposição parte de uma ideia central do Museu da Pessoa: toda pessoa possui uma história que merece ser preservada e compartilhada.
Em Vidas em Cordel, esse princípio encontra uma linguagem capaz de aproximar biografia e cultura popular. Os relatos deixam de existir apenas como registros de memória e passam por uma transformação artística que combina palavra, oralidade e imagem.
A curadoria é de Marco Haurélio, escritor, professor, cordelista e pesquisador da literatura de cordel e do folclore brasileiro; Lucélia Borges, produtora cultural, artista plástica, xilogravadora e contadora de histórias; e Jonas Samaúma, poeta, escritor, cordelista e contador de histórias.
Essa combinação também amplia a leitura possível da mostra. O visitante não encontra somente textos para observar nas paredes. Literatura, ilustração e narrativa oral funcionam como diferentes portas de entrada para as mesmas experiências humanas.
Exposição aposta em participação
Outro elemento que diferencia a proposta é a tentativa de transformar a visita em uma experiência sensorial e participativa.
O público poderá interagir com uma cabine instalada no espaço e percorrer a exposição acompanhado por uma playlist inspirada na cultura popular brasileira.
Ao final do percurso, cada visitante também poderá retirar gratuitamente um exemplar de um dos cordéis apresentados na mostra.
O gesto faz com que parte da exposição deixe fisicamente o museu com o público. A história vista durante a visita pode continuar circulando, sendo lida e compartilhada fora do espaço expositivo, mantendo uma característica essencial do próprio cordel: a capacidade de viajar de mão em mão e de fazer narrativas alcançarem novos leitores.
Para Karen Worcman, fundadora do Museu da Pessoa, a chegada da mostra à capital cearense cria justamente esse encontro entre memória e público.
“O cordel tem uma potência muito especial para contar histórias porque aproxima a memória da poesia, da oralidade e da cultura popular. Levar a exposição Vidas em Cordel para Fortaleza é também reconhecer a força das histórias de vida e criar novos encontros entre essas narrativas e o público”, afirma.
Sala de aula também entra na mostra
A passagem de Vidas em Cordel por Fortaleza também possui uma frente voltada à educação.
O Museu da Pessoa disponibiliza gratuitamente materiais direcionados a professores do Ensino Fundamental e gestores da Educação Básica, entre eles Orientações para o plano de aula e Caderno do educador.
Os conteúdos podem ser trabalhados em disciplinas como Artes, História, Língua Portuguesa e Ciências Humanas, além de funcionar como preparação para visitas presenciais ou digitais.
A iniciativa amplia o alcance da exposição ao transformar as histórias apresentadas no Dragão do Mar em possíveis instrumentos pedagógicos. Memória, produção textual, identidade, território, artes visuais e oralidade podem ser explorados a partir das trajetórias reais transformadas em versos.
Um museu formado por pessoas
Criado em 1991, o Museu da Pessoa funciona de maneira virtual e colaborativa e construiu seu acervo a partir do registro e da preservação de histórias de vida.
Atualmente, a instituição reúne mais de 20 mil histórias e 50 mil imagens, formando um arquivo baseado não apenas em grandes acontecimentos históricos, mas nas experiências de indivíduos e comunidades.
Em Vidas em Cordel, parte desse patrimônio ganha uma nova forma de circulação. A biografia se transforma em poesia, a memória encontra a xilogravura e a experiência individual passa a dialogar com uma linguagem cultural que permanece viva e reconhecível por diferentes gerações.
É justamente nessa combinação que a exposição encontra seu principal interesse: mostrar que uma história pessoal pode também funcionar como documento de um lugar, de uma época, de relações e de diferentes maneiras de compreender o mundo.
Serviço
Exposição: Vidas em Cordel
Local: Multigaleria do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza
Abertura: 15 de outubro, às 19h
Período: 15 de outubro a 19 de dezembro de 2026
Visitação: quarta a sexta, das 10h às 18h; sábado e domingo, das 11h às 19h
Acesso: gratuito, permitido até 30 minutos antes do encerramento da visitação
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