Especialista explica que perda de peso e melhora metabólica associadas a medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro podem contribuir para a saúde reprodutiva; evidências ainda são limitadas
Medicamentos utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2 podem ter efeitos positivos indiretos sobre a fertilidade de homens e mulheres. Fármacos associados à classe dos agonistas do receptor de GLP-1 ganharam espaço nessa discussão após novos dados científicos sobre a relação entre perda de peso, melhora metabólica e saúde reprodutiva.
Estudos analisam relação entre GLP-1 e fertilidade
O tema ganhou destaque no ENDO 2026, congresso anual da Endocrine Society realizado em junho, em Chicago, nos Estados Unidos. Uma revisão apresentada no encontro avaliou ensaios clínicos sobre os efeitos dos agonistas do receptor de GLP-1 na saúde reprodutiva masculina.
Os pesquisadores britânicos identificaram cinco ensaios clínicos randomizados elegíveis. Os resultados não apontaram prejuízo significativo aos hormônios reprodutivos, à função sexual ou à qualidade do sêmen. Em homens com obesidade e hipogonadismo funcional, alguns estudos indicaram melhora nos níveis hormonais e em parâmetros do sêmen associada à perda de peso e à melhora da saúde metabólica.
Os próprios pesquisadores, entretanto, ressaltaram que as evidências disponíveis ainda são limitadas e heterogêneas e que são necessários estudos maiores. Os medicamentos também não foram avaliados ou aprovados especificamente como tratamento para infertilidade masculina.
Como os medicamentos agem no organismo
Os agonistas do receptor de GLP-1 reproduzem efeitos de um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições. Dependendo do medicamento, os mecanismos podem envolver também outros receptores metabólicos. Esses tratamentos atuam, entre outros aspectos, sobre saciedade, ingestão alimentar e controle da glicemia.
Ozempic e Wegovy têm como princípio ativo a semaglutida. Já o Mounjaro utiliza tirzepatida, substância que atua simultaneamente nos receptores de GIP e GLP-1.
A relação desses medicamentos com a fertilidade ocorre principalmente de maneira indireta. A redução do peso e a melhora metabólica podem contribuir para corrigir alterações hormonais associadas à obesidade.
Segundo Dhianah Santini, endocrinologista e professora do Instituto de Educação Médica (Idomed), não há evidências atualmente de que o uso prolongado dos agonistas de GLP-1 comprometa a fertilidade masculina.
“Por outro lado, temos dados mostrando melhora das chances de mulheres engravidarem, pois a obesidade também está muito associada à infertilidade, doenças inflamatórias, endometriose, entre outras condições”, explica.
Perda de peso pode contribuir para retomada da ovulação
Entre as mulheres, a melhora metabólica e a perda de peso podem favorecer a regularização hormonal em determinados quadros associados à obesidade.
“Muitas pacientes com síndrome dos ovários policísticos e resistência à insulina tinham dificuldade para engravidar e, à medida que começaram a emagrecer, observaram melhora. Por conta disso, surgiu um termo que é utilizado recentemente, como os ‘bebês do Ozempic’, porque o uso do medicamento nos últimos anos vem aumentando a fertilidade em algumas mulheres”, afirma Dhianah Santini.
Isso não significa, entretanto, que Ozempic, Wegovy ou Mounjaro sejam medicamentos para estimular a ovulação ou tratamentos específicos de infertilidade.
A possibilidade de uma gravidez também exige atenção especial. Mulheres que utilizam esses medicamentos e pretendem engravidar devem conversar com o médico responsável sobre o planejamento e a interrupção do tratamento conforme as orientações específicas de cada medicamento.
Uso exige indicação e acompanhamento médico
Dhianah Santini reforça que os medicamentos não devem ser encarados como “injeções mágicas”. A indicação precisa levar em consideração fatores como peso, presença de diabetes, doenças cardiovasculares, função renal, histórico clínico, outros medicamentos utilizados e possíveis contraindicações.
A especialista também recomenda que o aumento das doses seja realizado gradualmente, respeitando a prescrição. A titulação progressiva ajuda na tolerabilidade e pode reduzir efeitos gastrointestinais, como náuseas, vômitos, refluxo, diarreia e constipação.
Alimentação e exercícios continuam fundamentais
A redução do apetite proporcionada pelo tratamento não elimina a necessidade de uma alimentação nutricionalmente adequada. Proteínas de boa qualidade, frutas, legumes, verduras, fibras e hidratação devem fazer parte da rotina de acordo com as necessidades individuais e a orientação dos profissionais responsáveis.
Dietas extremamente restritivas podem aumentar o risco de perda de massa muscular e deficiências nutricionais.
A prática regular de atividade física também é importante. A combinação entre tratamento medicamentoso, alimentação adequada e exercícios contribui para preservar massa muscular e melhorar indicadores metabólicos.
Pacientes devem ficar atentos aos efeitos adversos
Náuseas e sensação de empachamento podem ocorrer especialmente no início do tratamento. Sintomas intensos ou persistentes, como vômitos repetidos, dor abdominal importante, sinais de desidratação ou dificuldade para se alimentar adequadamente, precisam ser avaliados por um profissional de saúde.
Outro alerta é para a procedência dos medicamentos. A alta procura por produtos à base de semaglutida e tirzepatida ampliou a preocupação de autoridades sanitárias com versões falsificadas, irregulares ou armazenadas inadequadamente.
Benefícios vão além do número na balança
A resposta ao tratamento varia entre os pacientes. Enquanto algumas pessoas apresentam redução de peso mais rápida, outras passam por um processo gradual.
Segundo a especialista, o sucesso do tratamento não deve ser medido exclusivamente pelo peso. Melhora da glicemia, redução da gordura visceral, controle da pressão arterial, qualidade do sono, disposição física e redução de riscos cardiometabólicos também devem ser considerados.
No caso da fertilidade, os dados científicos reforçam uma possível consequência positiva da melhora da saúde metabólica, mas não transformam esses medicamentos em tratamentos para infertilidade. A avaliação individual e o acompanhamento médico continuam fundamentais.
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