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Infarto muda de classificação: nova definição global abandona tipos numéricos

Quinta Definição Universal do Infarto substitui os antigos tipos numéricos por três categorias clínicas. Dr. Milanez, da Rede Oto, explica os impactos da mudança no diagnóstico e no acompanhamento dos pacientes.
@feedfortal 13 de setembro de 2026 9 minutes read
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Consenso internacional passa a dividir os casos em infarto primário, secundário ou relacionado a procedimentos e incorpora novos critérios para diagnóstico

A medicina mudou a forma de classificar o infarto do miocárdio. Publicada em agosto de 2026, a Quinta Definição Universal de Infarto do Miocárdio substitui a tradicional divisão em tipos numéricos por uma classificação baseada na origem clínica do evento.

Com a atualização, nomenclaturas como infarto tipo 1, tipo 2, tipo 3, tipo 4a, 4b, 4c e tipo 5 deixam de ocupar o centro da classificação. Os casos passam a ser organizados em três grandes grupos: infarto primário, infarto secundário e infarto relacionado a procedimento.

O novo consenso foi elaborado conjuntamente por quatro das principais entidades internacionais da cardiologia: Sociedade Europeia de Cardiologia, Colégio Americano de Cardiologia, Associação Americana do Coração e Federação Mundial do Coração.

A mudança busca fazer com que a classificação traduza melhor o mecanismo que provocou o problema, utilizando critérios objetivos para aumentar a consistência do diagnóstico na prática clínica e nas pesquisas.

Para o cirurgião cardiovascular Dr. Milanez, da Rede Oto, a simplificação também pode melhorar um ponto fundamental do atendimento: a compreensão do próprio paciente sobre o que aconteceu com seu coração.

Infarto muda de classificação: nova definição global abandona tipos numéricos
Dr. Milanez Cirurgião Cardiologista Rede Oto

“Por muito tempo, o paciente recebia uma codificação técnica que gerava mais dúvidas do que respostas sobre sua própria saúde. A nova classificação aproxima a medicina da linguagem prática”, explica o especialista.

O que muda na classificação do infarto

O infarto do miocárdio, popularmente conhecido como ataque cardíaco, acontece quando células do músculo cardíaco morrem em decorrência de um período prolongado de isquemia, situação em que existe fluxo sanguíneo insuficiente para determinada região do coração.

Embora a palavra “infarto” seja normalmente associada à obstrução de uma artéria por uma placa de gordura ou por um coágulo, diferentes mecanismos podem levar ao mesmo desfecho.

É justamente essa diferença que passa a ocupar uma posição central na nova definição.

A partir de agora, o médico deverá enquadrar o evento em uma das três grandes categorias de acordo com sua origem.

Infarto primário

O infarto primário ocorre espontaneamente devido a uma alteração aguda nas artérias coronárias.

O exemplo clássico é a ruptura ou erosão de uma placa de aterosclerose com formação de um trombo, capaz de reduzir ou interromper o fluxo sanguíneo para uma região do coração.

Mas a nova categoria é mais abrangente.

Também podem ser classificados como primários os infartos provocados por embolia coronariana, espasmo da artéria, dissecção espontânea de artéria coronária e determinadas complicações tardias envolvendo stents ou enxertos, quando surgem após o período definido para eventos relacionados diretamente ao procedimento.

Na prática, a categoria reúne situações em que existe uma doença coronariana aguda como origem direta do infarto.

Infarto secundário

O infarto secundário acontece quando outra condição aguda provoca um desequilíbrio entre a quantidade de oxigênio disponível para o músculo cardíaco e aquilo que o coração precisa naquele momento.

Isso significa que um paciente pode sofrer um infarto mesmo sem apresentar a ruptura aguda de uma placa de gordura.

Condições capazes de comprometer a oferta de oxigênio ou aumentar significativamente a demanda do coração podem participar desse processo, dependendo do quadro clínico.

Hipotensão grave, alterações importantes da oxigenação, anemia, arritmias e crises hipertensivas estão entre as situações que podem estar associadas ao desequilíbrio entre oferta e demanda.

A nova definição, porém, estabelece critérios mais objetivos justamente para diferenciar o infarto secundário de uma lesão cardíaca sem infarto.

Infarto relacionado a procedimento

A terceira categoria envolve os infartos que surgem como complicação de um procedimento cardíaco percutâneo ou cirúrgico.

A nova classificação considera eventos ocorridos dentro de uma janela de até 30 dias quando existe relação entre uma complicação do procedimento e a lesão isquêmica do músculo cardíaco.

Esse grupo passa a reunir situações anteriormente divididas entre classificações como tipo 4 e tipo 5.

Além das intervenções coronarianas e cirurgias de revascularização, o conceito pode envolver outras intervenções cardíacas quando os critérios definidos no consenso forem preenchidos.

O objetivo é aplicar critérios semelhantes independentemente de o procedimento ter sido realizado por uma abordagem percutânea ou cirúrgica.

“O paciente passa a entender a origem da doença”

Segundo Dr. Milanez, a mudança possui impacto direto na comunicação entre médicos e pacientes porque o diagnóstico deixa de ser apresentado apenas como uma sequência técnica de números e passa a indicar a origem clínica do problema.

“Ao explicar com clareza se o evento foi causado por uma placa obstruindo um vaso sanguíneo do coração, por uma alteração em decorrência de uma doença não cardíaca ou decorreu como consequência de um procedimento terapêutico, nós possibilitamos que o paciente entenda a origem da doença e ajude a aderir de forma muito mais consciente ao tratamento escolhido de acordo com o tipo de infarto”, afirma o cirurgião cardiovascular da Rede Oto.

A mudança também pode favorecer decisões posteriores ao atendimento de emergência.

Pacientes que sofreram um infarto por diferentes mecanismos não necessariamente terão a mesma investigação, o mesmo acompanhamento ou as mesmas estratégias de prevenção de novos eventos.

Saber que houve um infarto continua sendo fundamental. Entender por que ele ocorreu passa a ganhar ainda maior importância.

Troponina elevada não significa necessariamente infarto

Outro aspecto reforçado pela Quinta Definição Universal é a necessidade de diferenciar infarto de outras formas de lesão do músculo cardíaco.

A troponina cardíaca é um dos principais biomarcadores utilizados nos serviços de emergência para identificar lesão miocárdica.

Sua elevação, entretanto, não permite sozinha concluir que o paciente sofreu um infarto.

O diagnóstico precisa reunir evidências de lesão aguda do miocárdio e sinais de que essa lesão foi provocada por isquemia.

Sintomas, alterações no eletrocardiograma, resultados laboratoriais, exames de imagem cardíaca e avaliação das artérias coronárias podem ser considerados em conjunto.

A nova definição também reforça a utilização de valores de referência de troponina específicos por sexo, medida destinada a reduzir diferenças na identificação da lesão miocárdica e o risco de subdiagnóstico, particularmente entre mulheres.

Dissecção espontânea ganha espaço na classificação

Uma das condições que passa a receber maior visibilidade é a dissecção espontânea de artéria coronária.

O problema ocorre quando há uma alteração nas camadas da parede da coronária capaz de comprometer o fluxo sanguíneo.

Diferentemente do mecanismo clássico provocado pela ruptura de uma placa aterosclerótica, a dissecção espontânea pode ocorrer em pessoas que não apresentam o perfil tradicional de fatores de risco para doença coronariana.

A condição possui importância particular entre mulheres mais jovens e historicamente representa um desafio para o diagnóstico.

Na Quinta Definição Universal, ela aparece claramente entre as possíveis causas de infarto primário.

A mudança tende a favorecer o reconhecimento desse mecanismo, a investigação específica e a coleta de dados mais precisos sobre a condição.

A emergência continua exigindo rapidez

A nova classificação não muda um princípio essencial: suspeita de infarto continua sendo uma emergência médica.

Dor, pressão ou aperto no peito, falta de ar, suor frio, náusea, mal-estar súbito e desconforto que pode irradiar para braços, costas, mandíbula ou pescoço exigem avaliação médica imediata.

O atendimento inicial continua sendo determinado pela condição do paciente e pelos protocolos de emergência.

A nova definição ganha especial importância após a identificação do evento, quando a equipe busca compreender qual mecanismo provocou o infarto e quais estratégias serão necessárias para reduzir a possibilidade de recorrência.

Impacto vai além do consultório

A reformulação também pretende tornar os registros de infarto mais comparáveis entre hospitais, países, pesquisas clínicas e sistemas públicos de saúde.

A Quinta Definição Universal propõe uma classificação alinhada à Classificação Internacional de Doenças, a ICD-11, permitindo que diferentes mecanismos sejam identificados de maneira mais específica nos bancos de dados.

Para Dr. Milanez, essa padronização pode contribuir para melhorar tanto o conhecimento epidemiológico quanto o planejamento do acompanhamento individual dos pacientes.

“A padronização global e a integração com os registros da Organização Mundial da Saúde permitirão mapear o comportamento das doenças cardiovasculares com extrema fidelidade. Na Rede Oto, essa clareza diagnóstica fortalece nossa capacidade de estruturar rotinas de prevenção secundária altamente personalizadas para evitar novos eventos”, ressalta.

Rede Oto aposta em diagnóstico cardiovascular de alta complexidade

Em Fortaleza, a Rede Oto atua no atendimento de casos cardiovasculares de diferentes níveis de complexidade, com estrutura voltada ao diagnóstico, tratamento e prevenção das doenças do coração.

A rede dispõe de centro de diagnóstico cardiovascular, corpo clínico especializado e estrutura para procedimentos de alta complexidade, incluindo cirurgia cardíaca.

Dentro desse cenário, a nova classificação internacional pode influenciar principalmente a etapa que ocorre depois da emergência: compreender a causa do infarto, avaliar o risco individual do paciente e definir estratégias de prevenção secundária.

A Quinta Definição Universal representa, portanto, uma mudança de lógica.

Em vez de resumir o episódio a um número, a medicina passa a buscar uma resposta mais diretamente relacionada ao que aconteceu com aquele paciente.

Qual foi a origem do infarto?

É essa resposta que pode ajudar a definir os próximos passos do tratamento.

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