Bullying recorrente atinge 27,2% dos estudantes de 13 a 17 anos no Brasil, enquanto escolas reforçam escuta, empatia e parceria com as famílias

O cuidado com a saúde emocional de crianças e adolescentes vai além das ações concentradas no Setembro Amarelo. Em meio ao avanço de situações de bullying no ambiente escolar, especialistas defendem que reconhecer sentimentos, desenvolver empatia e aprender a pedir ajuda sejam habilidades trabalhadas desde os primeiros anos de vida.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgados pelo IBGE em março de 2026, mostram que 27,2% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos relataram ter sofrido bullying duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa. Em 2019, esse percentual era de 23,0%, o que representa um aumento de 4,2 pontos percentuais.
O levantamento também revelou que 12,7% dos adolescentes relataram ter sofrido bullying nas redes sociais, indicando que situações de intimidação e humilhação também se estendem ao ambiente digital.
Os números reforçam a discussão sobre o papel da escola não apenas na formação acadêmica, mas também na construção de ambientes em que crianças e adolescentes consigam estabelecer vínculos, expressar emoções e procurar apoio diante de conflitos ou situações de sofrimento.
Educação emocional começa nos primeiros anos

Para Cinthia Lopes Pequeno, psicóloga e conselheira da Maple Bear Fortaleza, o desenvolvimento socioemocional deve fazer parte da rotina das crianças e não ficar restrito a campanhas específicas.
“O Setembro Amarelo é um momento importante de conscientização, mas o cuidado emocional precisa acontecer todos os dias. Quando ensinamos uma criança a compreender o que sente e a respeitar a dor do outro desde cedo, estamos prevenindo o isolamento e preparando jovens mais confiantes para buscar apoio quando precisarem”, afirma.
Na infância, esse processo pode envolver atividades que estimulem a identificação das próprias emoções e a percepção dos sentimentos dos colegas. Também inclui a mediação de conflitos e a construção de espaços em que a criança consiga falar sobre desconfortos sem receio.
Na Maple Bear Fortaleza, uma das estratégias adotadas na Educação Infantil é a chamada “Almofada da Empatia”, direcionada a crianças de 3 a 5 anos. Segundo a instituição, a dinâmica busca estimular o reconhecimento de emoções nas expressões dos colegas e relacioná-las a atitudes de acolhimento e cuidado.
Adolescência amplia desafios dentro e fora da escola
Com a chegada à adolescência, as relações sociais passam a incluir de forma mais intensa o ambiente digital, ampliando os espaços em que conflitos, exposição e episódios de bullying podem ocorrer.
A PeNSE mostrou ainda que as meninas apresentam maior percentual de vitimização por bullying no ambiente escolar. Entre elas, 30,1% relataram episódios recorrentes, ante 24,3% dos meninos.
Nesse cenário, mudanças de comportamento podem ajudar famílias e educadores a perceber que algo precisa ser observado com maior atenção.
“Alterações repentinas de comportamento, isolamento, quedas no rendimento ou recusa em frequentar as aulas devem ser observadas com atenção por pais e professores. A escola não substitui a atuação de profissionais de saúde mental, mas cumpre um papel fundamental de acolhimento, orientação e encaminhamento das famílias quando necessário”, afirma Cinthia.
Escola e família precisam atuar juntas
A prevenção também passa pela comunicação entre escola e responsáveis. Mudanças que podem parecer isoladas em casa ou na sala de aula ganham outro significado quando as informações são compartilhadas.
Formação de professores para reconhecer alterações de comportamento, canais de escuta, acompanhamento das relações entre estudantes e orientação sobre o uso responsável das plataformas digitais estão entre as medidas que podem integrar essa rede de proteção.
O desafio é fazer com que a atenção à saúde emocional seja permanente. Dessa forma, o Setembro Amarelo funciona como período de mobilização, enquanto o trabalho de acolhimento, pertencimento e desenvolvimento socioemocional permanece durante todo o ano.
Onde buscar ajuda
Adolescentes e jovens de 13 a 24 anos também podem utilizar gratuitamente a plataforma Pode Falar, serviço de escuta e acolhimento em saúde mental.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia.
Pelo SUS, a orientação é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Em situações de emergência, os serviços indicados incluem SAMU 192, UPA, pronto-socorro e hospitais.
Siga o @feedfortal no Instagram.




