Consumidor mais seletivo passa a considerar qualidade dos materiais, manutenção, personalização e vida útil antes de escolher o mobiliário
O preço de compra começa a dividir espaço com outro critério na escolha dos móveis: quanto tempo o produto poderá permanecer em uso. Em meio a um consumidor mais cauteloso e atento ao orçamento, durabilidade, possibilidade de manutenção e adaptação à rotina ganham relevância na decisão de compra.
A mudança acompanha uma tendência identificada pelo Sebrae para 2026, definida como a passagem “do descartável ao durável”. O movimento aponta para um consumo com menos excesso e maior valorização de produtos multifuncionais, de vida útil prolongada e que permitam manutenção, reparo ou personalização.
No setor moveleiro, essa transformação ocorre em um momento de maior seletividade. Dados divulgados pela Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário, a ABIMÓVEL, nesta sexta-feira, 9 de outubro, mostram que a produção brasileira de móveis e colchões recuou 2,3% entre janeiro e julho de 2026 na comparação com o mesmo período de 2025. O faturamento, por outro lado, avançou 3,4% no período.
O cenário sucede um 2025 marcado por perda de ritmo no consumo interno e maior cautela na compra de bens duráveis, em meio a condições de crédito e orçamento doméstico mais restritas.
Para Nadson Bezerra, fundador da Moveo Design, de Fortaleza, esse comportamento amplia a atenção para o custo do mobiliário ao longo dos anos, e não somente para o valor desembolsado no momento da compra.
“Quando o consumidor começa a pensar em vida útil, muda a forma de avaliar um móvel. Material, ferragens, acabamento, montagem e possibilidade de adaptação passam a importar tanto quanto a aparência. Um produto barato que precisa ser substituído rapidamente pode deixar de representar economia”, explica.
O que observar antes da compra
Parte dos elementos que interferem diretamente na durabilidade não está entre os aspectos mais visíveis de um móvel. Estrutura, espessura e especificação dos materiais, qualidade das ferragens, sistemas de abertura, acabamento das bordas e precisão na montagem estão entre os pontos que podem influenciar o desempenho ao longo do uso.
Também é necessário considerar as características de cada ambiente. Cozinhas, por exemplo, estão expostas com maior frequência a umidade, calor, gordura, peso e uso intenso. Closets, dormitórios e escritórios apresentam condições diferentes e exigem soluções compatíveis com cada finalidade.
“Não existe apenas a pergunta ‘qual é o melhor material?’. Existe o material mais adequado para aquela aplicação. Quando projeto, matéria-prima e execução não conversam, até um material de boa qualidade pode ter seu desempenho comprometido”, afirma Nadson.
Personalização passa pela rotina
A personalização também deixa de estar restrita à escolha de cores, padrões e acabamentos. Projetar um móvel considerando as dimensões do imóvel, os objetos que serão armazenados e a rotina dos moradores pode reduzir áreas inutilizadas e evitar soluções que deixem de funcionar pouco tempo depois da instalação.
Nesse contexto, manutenção e substituição de componentes passam a integrar a discussão sobre vida útil. Para o consumidor, a possibilidade de trocar uma ferragem ou adaptar uma estrutura sem descartar todo o conjunto pode ampliar o período de utilização.
“Durabilidade não significa que um móvel precise permanecer igual para sempre. Um bom projeto também precisa considerar manutenção e a possibilidade de acompanhar mudanças na rotina. É uma visão menos imediatista sobre aquilo que colocamos dentro de casa”, acrescenta.
Indústria amplia debate sobre durabilidade
A discussão também avança entre fabricantes. Em julho, ABIMÓVEL e ApexBrasil lançaram a 5ª edição do Programa de Sustentabilidade da Indústria do Mobiliário, o SIMB, com novas métricas e instrumentos voltados à incorporação de critérios socioambientais à gestão das empresas.
Paralelamente, ABIMÓVEL e Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT, mantêm um projeto de revisão e elaboração de referenciais técnicos para diferentes segmentos do mobiliário, com critérios relacionados a segurança, resistência, funcionalidade e durabilidade.
Em um setor acostumado a apresentar novos padrões, cores e tendências a cada temporada, a longevidade começa a ganhar espaço como outro argumento de escolha. Mais do que acompanhar uma estética, a decisão passa a considerar quanto tempo o móvel consegue permanecer funcional, adaptável e compatível com a rotina de quem o utiliza.
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