Da desconexão digital à atividade física, projetos da mostra em Fortaleza transformam descanso, contemplação e contato com materiais naturais em elementos do morar contemporâneo
Em uma rotina marcada por notificações, excesso de estímulos e pouco tempo para pausas, a arquitetura começa a responder também a uma necessidade que vai além da estética: criar espaços capazes de favorecer descanso, acolhimento e conexão com o presente.
Essa discussão atravessa diferentes ambientes da CASACOR Ceará 2026, em cartaz no Meireles, em Fortaleza. Com o tema “Mente e Coração”, a 28ª edição coloca o bem-estar no centro de projetos que exploram desde a desconexão digital até a prática de atividade física, passando pelo contato com a natureza, pela valorização dos sentidos e por pequenos rituais do cotidiano.
A proposta aparece de formas distintas ao longo da mostra. Madeira, pedra natural, vegetação, luz indireta, água, livros e texturas artesanais dividem espaço com soluções voltadas à tecnologia e ao exercício físico. Mais do que reproduzir uma tendência estética, os projetos colocam em discussão como os ambientes podem acompanhar mudanças na maneira de morar, conviver e descansar.
Casa como espaço de desaceleração
Na Suíte Cipó, assinada por André Monte, o ponto de partida está justamente na necessidade de se afastar, ainda que temporariamente, das telas, notificações e outros estímulos que ocupam a rotina.
A cama funciona como elemento central e estabelece uma transição entre convivência e individualidade. Madeira, pedra natural e metal aparecem ao lado de livros, obras de arte e objetos que ajudam a construir uma atmosfera mais pessoal.
Luz, sons e aromas completam a experiência e reforçam uma pergunta cada vez mais presente na arquitetura residencial: o que realmente precisa estar dentro de casa para que o ambiente seja confortável?
O descanso também orienta o Sereno Lounge WeeTravel | Regent Cruises, criado por Ana Rita Luna e Silvia de Castro. O projeto trabalha o conceito de luxo silencioso em uma composição acolhedora e atemporal.
A ideia relaciona a desaceleração à experiência de viajar, transformando o momento anterior ao deslocamento em parte da própria jornada. O ambiente representa a WeeTravel e a Regent Seven Seas Cruises.
Bem-estar também passa pelo corpo
Nem todos os projetos interpretam o cuidado como silêncio ou repouso.
No Naguri Wellness Matrix, da NLPX Arquitetura, de Naiana Lima e Priscilla Ximenes, a atividade física passa a fazer parte da experiência arquitetônica. Com 130 m², o espaço se distancia da imagem convencional de academia ao combinar equipamentos de exercício com volumes orgânicos, paisagismo, luz indireta, texturas e tons suaves.
O conceito reúne referências da técnica japonesa Naguri, das dunas cearenses e do desenho dos equipamentos Onyx, da Matrix Fitness.
A integração ajuda a colocar em evidência uma mudança na própria ideia de wellness. O exercício não aparece isolado da arquitetura, mas inserido em um ambiente pensado para proporcionar acolhimento durante a prática física.
Natureza entra na rotina
A aproximação entre arquitetura e natureza ganha diferentes leituras ao longo da mostra.
No Estar Entre Folhas Guaramiranga, Isabelle Miranda e Tiago Falcão buscam inspiração na paisagem serrana cearense. Madeira, vidro, pedra natural, livros e obras de artistas e artesãos locais compõem um espaço pensado para atividades aparentemente simples, como ler, conversar ao redor da mesa ou tomar café.
A proposta valoriza justamente a permanência. Em vez de pensar apenas na circulação, o projeto cria condições para ficar.
Esse mesmo princípio aparece no Casulo Café Comércio, do Estúdio Vinicius Macêdo. Instalado sob a copa de uma grande mangueira, o ambiente recupera referências das tradicionais varandas brasileiras e aproxima interior e jardim.
Operado pelo Café Comércio Restaurante-escola, Cafeteria e Confeitaria do Senac Ceará, com café oficial Santa Clara, o espaço funciona como uma área de pausa dentro do circuito da CASACOR. Sombra, vegetação e luz ajudam a criar uma atmosfera voltada à conversa e ao descanso.
Já o Refúgio Araripe, de Bruna Rafaélli, busca inspiração no soldadinho-do-araripe, ave exclusiva do Ceará e ameaçada de extinção.
A relação entre a necessidade de proteção da espécie e a busca humana por refúgios orienta o ambiente. Madeira, vidro, tons terrosos e texturas orgânicas aproximam arquitetura, biodiversidade e referências da paisagem da Chapada do Araripe.
Jardins transformam percurso em pausa
Nos espaços externos, a experiência contemplativa ganha ainda mais força.
A instalação Origem, ondas que conectam, de Jander Jucá, ocupa 40 metros lineares e utiliza bambu natural e tecido translúcido tensionado em curvas orgânicas. Arcos com vegetação pendente produzem sombra e filtram a luz durante o percurso.
À noite, a estrutura assume outro aspecto e funciona como um portal luminoso. A solução modular e reaproveitável também incorpora a sustentabilidade à proposta.
Em Entre Tramas e Águas, de Thiago Borges Arquitetura da Paisagem, vegetação, água e arquitetura formam um jardim pensado como intervalo no circuito expositivo.
Um pergolado de madeira com muxarabis permite a circulação do ar e cria jogos de luz e sombra. Sob a estrutura, um espelho d’água envolve uma árvore escultural, enquanto piscina natural, pedras e áreas de permanência completam a composição.
Mais do que preencher áreas externas, os dois projetos transformam o percurso em parte da experiência.
Menos excesso, mais permanência
A busca por uma relação mais tranquila com os espaços também aparece na escolha dos materiais.
No Casa Kai, de Afonso Tomoda, com curadoria da Fina Casa, o conceito japonês Wabi-Sabi serve como referência para valorizar a simplicidade, a passagem do tempo e as características naturais dos materiais.
Madeira, pedra, texturas artesanais, tons terrosos e iluminação indireta aproximam referências orientais das raízes tropicais do Ceará. A proposta questiona uma lógica baseada na substituição constante e sugere um morar em que objetos e materiais possam permanecer e envelhecer junto com a casa.
No Living Artéria, de Lia Sampaio e Erasmo Pereira Arquitetura e Interiores, o caminho passa pela experiência sensorial.
Pedras naturais, tecidos, mobiliário e obras de arte criam diferentes camadas visuais e táteis. O ambiente trabalha a relação entre matéria, arte e arquitetura para construir um espaço de convivência em que a atenção aos detalhes faz parte da experiência.
Arquitetura além da estética
Ao aproximar conceitos como desconexão digital, atividade física, biodiversidade, contemplação e permanência, a CASACOR Ceará 2026 evidencia como o debate sobre bem-estar passou a ocupar também o desenho dos espaços.
Não existe uma única fórmula entre os projetos. Alguns apostam no silêncio. Outros, no movimento. Há ambientes que procuram aproximar as pessoas da natureza e outros que utilizam materiais, iluminação, sons e texturas para estimular diferentes sentidos.
O ponto de encontro está na tentativa de fazer com que o espaço dialogue de forma mais direta com a rotina de quem o ocupa.
A edição deste ano reúne 35 ambientes assinados por 51 profissionais, além de cerca de 140 empresas parceiras, e segue aberta ao público até 29 de novembro, na Rua Tibúrcio Cavalcante, 607, no Meireles.
Serviço
CASACOR Ceará 2026
Período: 15 de outubro a 29 de novembro de 2026
Local: Rua Tibúrcio Cavalcante, 607, Meireles, Fortaleza
Funcionamento: terça-feira a sábado, das 16h às 22h; domingos e feriados, das 15h às 21h
2 de novembro, segunda-feira: das 15h às 21h
15 de novembro, domingo: das 15h às 21h
20 de novembro, sexta-feira: das 15h às 21h
Entrada inteira: R$ 98
Meia-entrada: R$ 49
Passaporte: R$ 290, pessoal e intransferível, com visitação livre nos dias de funcionamento da mostra
Professores da rede pública: entrada gratuita mediante apresentação de documento funcional
Ingressos: appcasacor.com.br/events/ceara/tickets
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