Mostra “A invenção do Paraíso” reúne pintura, bordado, escultura e vestígios naturais em diálogo com a memória, a paisagem e a arquitetura soteropolitana
A Galatea Salvador abre, no dia 3 de julho de 2026, uma exposição que propõe uma travessia entre memória, matéria e imaginação. Intitulada “A invenção do Paraíso: Gabriela Melzer & Ygor Landarin”, a mostra reúne, pela primeira vez, os dois artistas nos espaços principais da galeria, localizada na Rua Chile, no Centro Histórico de Salvador. A abertura acontece em meio às celebrações da Independência da Bahia, período em que a capital baiana revisita sua própria história e reafirma a força de sua cena cultural.
A exposição parte de uma pergunta sensível e provocadora: o que resta de um lugar quando ele passa a existir também no campo da lembrança? A partir dessa ideia, Gabriela Melzer e Ygor Landarin apresentam trabalhos que observam a paisagem não como imagem fixa, mas como território em constante mutação. O paraíso, no contexto da mostra, não aparece como lugar idealizado. Ele surge como construção simbólica, subjetiva e provisória, formada por camadas de tempo, vestígios, deslocamentos, cores, formas e experiências.
Com texto curatorial de Tomás Toledo e Alana Silveira, a mostra aproxima duas pesquisas distintas, mas profundamente conectadas pelo interesse na transformação da matéria. Enquanto Melzer desenvolve composições pictóricas marcadas pela abstração, pela cor e pela percepção, Landarin trabalha com bordado, escultura e materiais como areia, cimento, conchas, ouriços e porcelana fria para investigar relações entre memória, arqueologia e território.
Salvador como ponto de partida para novas paisagens
A cidade de Salvador ocupa papel central na exposição. Sua arquitetura, seus relevos, suas superfícies desgastadas pelo clima e sua relação íntima com o mar aparecem como referências que atravessam as obras dos dois artistas. No entanto, a mostra não propõe uma representação direta da cidade. O que se vê é uma reelaboração sensível da paisagem soteropolitana, filtrada pela observação, pela imaginação e pela experiência corporal diante dos lugares.
Nas pinturas de Gabriela Melzer, parte das referências nasce da observação da arquitetura de Salvador e dos efeitos do tempo sobre fachadas, texturas e superfícies urbanas. Esses elementos são convertidos em estruturas visuais nas quais formas orgânicas, campos cromáticos e sistemas lineares coexistem em tensão. Linhas sinuosas atravessam áreas de cor organizadas por divisões modulares, criando composições que oscilam entre controle e improvisação.
A artista não busca reproduzir o mundo visível. Seu interesse está nas brechas entre o físico e o intangível, entre aquilo que se vê e aquilo que se sente. As camadas de tinta, somadas aos gestos realizados com bastões oleosos, criam superfícies que parecem guardar movimentos, ritmos e presenças. A pintura, nesse processo, torna-se um espaço de percepção prolongada.
“Nas obras, o meu objetivo não é meramente representar o mundo, mas explorar essas brechas — lugares onde o físico e o não físico se tocam, criando uma realidade que sentimos, mas não vemos. Essa é uma busca por abrir espaços que todos podem acessar, mesmo que não estejam claramente delineados. Trata-se de nos permitir sentir além do que estamos acostumados, juntos, e encontrar uma maneira de dar forma ao que normalmente passaria despercebido.”
Gabriela Melzer e a construção de paisagens interiores
Nascida em 1999, Gabriela Melzer vive e trabalha em São Paulo. Sua trajetória passa por Nova York, onde aprimorou suas técnicas de pintura e desenho em cursos na The New School e na Art Students League, além de formação em Liberal Arts pela Parsons New School. Sua produção se insere em uma investigação contínua sobre abstração, cor, movimento e percepção.
Em “A invenção do Paraíso”, Melzer dá continuidade a uma pesquisa que transforma elementos da natureza e da paisagem construída em composições densas, orgânicas e cromaticamente elaboradas. A artista trabalha com formas arredondadas, linhas em fluxo e estruturas que sugerem tanto mapas quanto organismos, tanto arquitetura quanto sensação. Há, em suas obras, uma tentativa de desacelerar o olhar e oferecer ao espectador um espaço de repouso visual.
A série “Desenhos” (2026), realizada com bastão de óleo sobre painel telado, intensifica a presença do desenho em sua produção. Linhas, campos de cor e estruturas modulares criam imagens que não se entregam de imediato. Elas exigem tempo, aproximação e disponibilidade. A experiência visual se torna também uma experiência de escuta, como se cada forma guardasse uma memória ou uma vibração.
Entre as exposições recentes da artista estão “Gabriela Melzer: delírios solares”, na Galeria Filomena, no Rosewood, em São Paulo, em 2025; “Gabriela Melzer: Animismo”, na FEMA Gallery, em Cascais, Portugal, também em 2025; “Diálogos”, na Arpa & Shopping Cidade Jardim, em São Paulo, em 2024; e “Líquen teso”, coletiva realizada na Galatea, em São Paulo, em 2024.
Ygor Landarin transforma vestígios em cartografias afetivas
Ygor Landarin, nascido em 1995 em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e criado em Florianópolis, desenvolve uma pesquisa marcada pelo encontro entre arte, memória e arqueologia. Formado pela Escola de Artes Visuais Parque Lage, no Rio de Janeiro, o artista trabalha com escultura, bordado e experimentações materiais que aproximam paisagem, tempo e permanência.
Na exposição, Landarin apresenta obras que partem de lugares que atravessam sua trajetória e de vestígios que permanecem nesses espaços. Areia, conchas, ouriços, pedras, cimento e porcelana fria surgem como matérias carregadas de memória. O artista observa aquilo que fica, aquilo que o tempo deposita e aquilo que o deslocamento transforma.
Parte da produção exibida foi desenvolvida após uma temporada de pesquisa em Salvador, período em que Landarin realizou coletas em praias da cidade e aprofundou o contato com referências locais. A obra “Paraízo” (2026) tem como referência central o legado de Juarez Paraíso, nome fundamental da arte baiana. Reunindo areia, conchas, ouriços e pedras, o trabalho constrói uma espécie de cartografia afetiva da cidade, feita a partir de fragmentos e marcas deixadas pela passagem do tempo.
A presença de concheiros e sambaquis em sua pesquisa amplia a relação entre obra e arqueologia. Ao transformar vestígios naturais em objetos de contemplação, Landarin tensiona as fronteiras entre documento, memória e invenção. O que poderia parecer ruína ou resíduo ganha outra densidade, passando a operar como sinal de permanência e transformação.
Um novo momento na trajetória de Landarin
A mostra também marca o início da representação de Ygor Landarin pela Galatea, em um momento de projeção crescente para o artista. Em 2026, ele integra o 39º Panorama da Arte Brasileira: “Depois que tudo foi dito”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, uma das exposições de maior relevância no circuito de arte contemporânea do país. O artista também foi indicado ao Prêmio PIPA 2026 e possui obras na coleção do Museu de Arte do Rio.
Sua trajetória inclui participação em residências artísticas como FAAP, em São Paulo, em 2019, e Domo Damo, também em São Paulo, em 2025. Entre as exposições das quais participou estão “Falácia Natural”, na Galeria Refresco, no Rio de Janeiro, em 2026; “A ética e a estética na era da imagem”, no Centro Cultural Correios RJ, em 2026; “Manguezal”, no CCBB Rio de Janeiro, em 2025; “Querela: Para além de qualquer princípio”, no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, em 2025; “Mostra Nise da Silveira: A revolução pelo afeto”, no CCBB Brasília, entre 2024 e 2025; e a Bienal de Coimbra, em Portugal, em 2024.
Outro ponto importante de sua formação é a colaboração com a artista Brígida Baltar, entre 2017 e 2022. A relação com Baltar influenciou diretamente a incorporação do bordado em sua prática. Em muitos trabalhos, Landarin parte do desenho como marcação inicial, depois borda e, em seguida, recobre a superfície com areia. O gesto reúne delicadeza, apagamento e permanência.
O paraíso como invenção em movimento
A força da exposição está justamente no encontro entre duas práticas que não se anulam. Gabriela Melzer e Ygor Landarin partem de procedimentos distintos, mas compartilham o interesse por matérias que se transformam com o tempo. Em ambos, a paisagem deixa de ser apenas cenário e passa a funcionar como experiência. A memória não aparece como arquivo fechado, mas como matéria viva.
Em Melzer, a paisagem se reorganiza pela cor, pela linha e pela abstração. Em Landarin, ela se recompõe por vestígios, coletas e camadas materiais. Juntas, as obras sugerem que o paraíso talvez não esteja em um destino fixo, mas na possibilidade de recriar relações com os lugares que atravessamos.
“A invenção do Paraíso” propõe ao público uma experiência de observação lenta. A mostra convida a perceber como o tempo age sobre as coisas, como a imaginação reorganiza as lembranças e como a matéria pode carregar histórias silenciosas. Em Salvador, cidade marcada por camadas históricas, arquitetônicas e afetivas, essa conversa ganha ainda maior densidade.
Serviço
Exposição: A invenção do Paraíso: Gabriela Melzer & Ygor Landarin
Texto curatorial: Tomás Toledo e Alana Silveira
Local: Galatea Salvador
Endereço: Rua Chile, 22, Centro, Salvador, Bahia
Abertura: 3 de julho de 2026
Período expositivo: 3 de julho a 10 de outubro de 2026
Horários: terça a quinta, das 10h às 19h; sexta, das 10h às 18h; sábado, das 11h às 15h
Ingresso: gratuito
Mais informações: galatea.art
Instagram: @galatea.art_
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