Especialista defende equilíbrio entre estudos, descanso e convivência familiar durante a reta final de preparação para o exame

A proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio intensifica uma rotina já exigente para milhares de estudantes. Aulas em tempo integral, revisões, simulados, metas de desempenho e a expectativa por uma vaga na universidade transformam os últimos meses de preparação em uma verdadeira maratona. No Ceará, onde a educação e a busca por bons resultados acadêmicos ocupam espaço relevante na trajetória de muitos jovens, a pressão também pode ultrapassar os limites da sala de aula.
Por trás do esforço para alcançar uma boa pontuação, um desafio menos visível começa a ganhar importância: preservar a saúde emocional durante a preparação.
A psicóloga, neuropsicóloga e educadora parental Sarah Rebeca Barreto alerta que dedicação e alto rendimento não precisam significar o abandono do descanso, da convivência familiar, das amizades e de outras experiências fundamentais da adolescência.
“A adolescência é uma fase de expansão, descoberta e construção de laços sociais. Quando a rotina de estudos sufoca os momentos de respiro, é natural que surja a exaustão e a ideia perigosa do ‘tudo ou nada’”, afirma.
Segundo a especialista, a preparação pode ser intensa sem necessariamente transformar o cotidiano do estudante em um período marcado apenas por cobrança e sofrimento.
“Essa maratona não precisa ser percorrida no sofrimento. É perfeitamente possível manter o foco nos estudos e preservar a saúde mental e a leveza que essa etapa da vida exige”, acrescenta.
Quando o desempenho vira pressão
Na reta final para uma prova decisiva, é comum que estudantes aumentem o número de horas dedicadas aos estudos e reduzam atividades consideradas secundárias. O problema surge quando descanso, lazer e convivência passam a ser vistos como perda de tempo.
A lógica pode levar o jovem a interpretar qualquer pausa como sinal de falta de comprometimento. Aos poucos, dormir, conversar com amigos, praticar uma atividade física ou simplesmente permanecer algum tempo longe dos livros pode provocar culpa.
Para Sarah Rebeca Barreto, esse tipo de comportamento merece atenção porque o rendimento acadêmico também depende da capacidade de recuperar energia física e emocional.
A preparação sustentável, portanto, não está relacionada apenas à quantidade de conteúdo estudado. Ela envolve organização, pausas, sono, alimentação, momentos de descanso e relações sociais que permitam ao adolescente manter alguma normalidade durante um período de alta cobrança.
Família pode aliviar a pressão
Dentro de casa, pais e responsáveis exercem papel decisivo na maneira como o estudante atravessa essa fase.
A especialista defende que o ambiente familiar não seja transformado em uma extensão permanente da escola ou do cursinho. Em vez de repetir perguntas sobre notas, simulados, concorrência e número de acertos, a família pode funcionar como um espaço de acolhimento e descompressão.
Isso significa permitir que, ao chegar em casa, o adolescente também tenha oportunidade de deixar temporariamente de ser tratado apenas como vestibulando.
Refeições em família, por exemplo, podem ser preservadas como momentos livres de cobranças sobre desempenho. Conversas sobre assuntos cotidianos, interesses pessoais, amizades ou planos que não estejam relacionados ao exame ajudam a lembrar que a vida do jovem não se resume ao resultado de uma prova.
A estratégia também passa pelo incentivo a pausas sem culpa.
Descansar não deve ser interpretado automaticamente como falta de disciplina. Dentro de uma rotina organizada, os intervalos ajudam o estudante a recuperar a concentração e retornar ao conteúdo com melhores condições para aprender.
A armadilha do “tudo ou nada”
Outro ponto destacado pela psicóloga é a necessidade de combater a ideia de que o resultado do ENEM define sozinho o futuro do estudante.
Durante meses de preparação, a importância atribuída à prova pode fazer com que uma eventual frustração seja interpretada como fracasso pessoal. É justamente nesse momento que a família pode ajudar a colocar o exame em perspectiva.
Uma nota representa um desempenho em uma determinada avaliação. Ela não determina, isoladamente, a capacidade, o valor pessoal ou todas as possibilidades profissionais de um jovem.
Sarah Rebeca defende que pais e responsáveis deixem claro que orgulho, afeto e reconhecimento não dependem da quantidade de questões acertadas.
Essa segurança pode ser especialmente importante nas semanas que antecedem a prova, quando a comparação com colegas, as projeções de notas e a expectativa pela aprovação tendem a aumentar.
Foco sem cancelar a juventude
O equilíbrio defendido pela especialista não significa reduzir a dedicação aos estudos ou abandonar metas ambiciosas.
A proposta é evitar que o alto desempenho seja construído às custas de um processo de esgotamento.
A adolescência continua sendo uma fase de convivência, descobertas, formação de identidade e desenvolvimento de vínculos. Mesmo durante um período decisivo para a vida acadêmica, preservar parte dessas experiências pode ajudar o estudante a enfrentar a pressão com mais estabilidade.
Na reta final do ENEM, portanto, o desafio pode ir além de revisar conteúdos. Para estudantes e famílias, também é o momento de compreender que foco e afeto não precisam ocupar lados opostos.
É possível perseguir uma vaga na universidade sem transformar cada dia em uma prova.
Sobre a especialista
Sarah Rebeca Barreto é psicóloga, neuropsicóloga e educadora parental. Atua no acompanhamento do desenvolvimento emocional e cognitivo de adolescentes e famílias, com trabalho voltado à saúde mental, orientação parental e estratégias de desempenho associadas ao equilíbrio emocional no contexto escolar.
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