Encontro discutiu energia renovável, investimentos, empregos e infraestrutura digital no mesmo dia em que o governo federal sancionou o Redata, regime de incentivos para o setor.

Fortaleza recebeu, nesta terça-feira (15), um debate sobre a expansão dos data centers no Nordeste e as condições necessárias para transformar o Ceará em um dos polos estratégicos da infraestrutura digital brasileira. A discussão ocorreu durante a 7ª edição do projeto Transição Energética, realizada no Hotel Gran Marquise pelos jornais O Globo e Valor Econômico.
Com o tema “O Nordeste como hub digital do futuro”, o encontro aproximou duas transformações que avançam simultaneamente no país: o crescimento da demanda por processamento de dados, computação em nuvem e inteligência artificial e a necessidade de ampliar essa infraestrutura com disponibilidade de energia, conectividade e sustentabilidade.
O debate aconteceu em um dia especialmente relevante para o setor. Nesta terça-feira, o governo federal também sancionou a criação do Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata, que estabeleceu incentivos fiscais para estimular a implantação e a ampliação desses empreendimentos no Brasil.
Energia renovável fortalece posição do Nordeste
Um dos principais pontos discutidos em Fortaleza foi a vantagem energética da região. O Nordeste concentra forte capacidade de geração de fontes renováveis, especialmente eólica e solar, característica que passou a ganhar ainda mais importância diante do elevado consumo de eletricidade associado a grandes centros de processamento de dados.
O primeiro eixo da programação, “Energia limpa como base da infraestrutura digital”, contou com a participação do ministro das Comunicações, Frederico de Siqueira Filho, e de Camylla Melo, especialista do Núcleo de Energia da Federação das Indústrias do Estado do Ceará, a FIEC.
A discussão avançou sobre a necessidade de combinar geração de energia, disponibilidade de infraestrutura elétrica, conectividade, ambiente regulatório e planejamento para transformar o potencial regional em investimentos permanentes.

Na véspera do encontro, Frederico de Siqueira Filho já havia defendido que a expansão dos data centers deveria ser analisada também sob a perspectiva da soberania digital. O ministro destacou que parte significativa dos dados brasileiros ainda é processada e armazenada fora do país e associou a ampliação da capacidade nacional à segurança e à competitividade da economia digital.
Ceará já recebe investimentos bilionários
O debate ganhou dimensão concreta diante dos projetos que avançam no Ceará. Um dos maiores está previsto para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, onde a Omnia Data Centers desenvolve um empreendimento de grande escala em parceria com a Casa dos Ventos.
O projeto foi anunciado com investimento de até US$ 2 bilhões e capacidade inicial de tecnologia da informação de 200 MW. A estrutura deverá utilizar energia renovável e foi planejada para atender demandas globais de computação em nuvem e inteligência artificial.
O empreendimento ajuda a colocar Caucaia e São Gonçalo do Amarante no centro das discussões sobre como grandes investimentos digitais podem modificar a economia da Região Metropolitana de Fortaleza.
Além do volume financeiro envolvido, a chegada desses projetos abriu questionamentos sobre qualificação profissional, fornecedores locais, geração de empregos, consumo energético, impactos ambientais e a capacidade de criar uma cadeia econômica que permaneça no território.
Empregos e desenvolvimento entraram no centro do debate
Esses impactos foram tratados no painel “Tecnologia, empregos e desenvolvimento regional no entorno dos data centers”.

A programação contou com Adryane Gorayeb, professora associada do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará; Machidovel Trigueiro, vice-diretor da Faculdade de Direito da UFC; e Wellysson de Moura Costa, representante da Omnia Data Centers no Ceará.
A presença da academia e do setor privado ampliou a discussão para além da construção dos grandes equipamentos. O desafio colocado para o Ceará passou também pela preparação de mão de obra, integração com universidades, desenvolvimento de fornecedores e participação das comunidades localizadas no entorno dos novos investimentos.
A Omnia já desenvolveu ações de capacitação profissional voltadas às comunidades próximas de sua área de atuação no Ceará, enquanto o avanço de projetos no entorno do Pecém estimulou discussões sobre a formação de um ecossistema tecnológico mais amplo na região.
Redata mudou cenário do setor no mesmo dia
Enquanto o tema era discutido em Fortaleza, o cenário regulatório brasileiro ganhou uma definição importante em Brasília.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta terça-feira a lei que criou o Redata. O regime prevê suspensão de tributos federais na aquisição de equipamentos destinados à implantação e à expansão de data centers, incluindo tributos incidentes sobre produtos nacionais e importados.
O programa também estabeleceu contrapartidas para as empresas beneficiadas. Entre elas estão investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de requisitos relacionados à energia utilizada pelos empreendimentos.
A sanção ocorreu duas semanas depois de o Senado aprovar o Projeto de Lei 278/2026, relatado pelo senador cearense Cid Gomes. Na votação, o texto manteve exigências relacionadas à eficiência hídrica e ao fornecimento de energia proveniente de fontes renováveis ou de baixa emissão.
A coincidência entre a sanção do Redata e a realização do encontro em Fortaleza reforçou a posição do Ceará dentro de uma disputa que deverá se intensificar nos próximos anos.
Fortaleza reúne vantagens para economia digital

A capital cearense também ocupa uma posição estratégica no mapa da conectividade internacional por concentrar infraestrutura ligada a cabos submarinos de fibra óptica, que conectam o Brasil a outros continentes.

Quando essa conectividade é combinada à disponibilidade regional de energia e aos novos investimentos no Complexo do Pecém, o Ceará passa a reunir fatores considerados estratégicos para a expansão da infraestrutura digital.
O desafio será converter essas vantagens em efeitos econômicos mais amplos. Mais do que receber grandes instalações, a consolidação de um polo de data centers dependerá da geração de conhecimento, formação profissional, criação de empresas fornecedoras, desenvolvimento tecnológico e capacidade de reduzir impactos ambientais.
As discussões realizadas em Fortaleza colocaram justamente essa questão no centro da agenda: como fazer com que a corrida global por capacidade computacional também produza desenvolvimento regional.
A edição do projeto Transição Energética teve mediação da jornalista Glauce Cavalcanti e foi realizada por O Globo e Valor Econômico, com patrocínio da Vale.
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