No especial do Dia do Médico, a residente em psiquiatria compartilha as escolhas e os encontros que dão sentido ao início de sua carreira.
O Dia do Médico, celebrado no próximo dia 18 de outubro, é o ponto de partida da série “Médicos que cuidam de Fortaleza”, do Feed Fortaleza. O especial apresenta profissionais a partir de suas trajetórias, das experiências que orientaram suas escolhas e dos vínculos construídos no atendimento à população.
Uma dessas histórias é a de Lara Moreira Ferreira, de 29 anos. Formada em medicina pela Universidade Federal do Ceará (UFC) no segundo semestre de 2023, ela cursa o primeiro ano da residência em psiquiatria. Seu percurso reúne interesses que passaram pelos animais e pelo teatro, além de uma experiência pessoal com sintomas de ansiedade que ajudou a definir o caminho profissional.
Ao falar sobre o significado da medicina, Lara encontra sua resposta nas mudanças que acompanha na vida dos pacientes: recuperar a confiança para sair de casa, retomar atividades e aceitar um cuidado antes recusado. São experiências que, mesmo em uma carreira ainda recente, já deixaram lembranças profundas.
Escolhas em construção
O interesse pela medicina apareceu na infância, associado à curiosidade sobre o próprio corpo. Lara não gostava de ir ao hospital e queria entender como os problemas de saúde aconteciam e como poderiam ser resolvidos. Era uma maneira infantil de buscar segurança diante de algo que a incomodava.
O amor pelos animais também a aproximou da possibilidade de ser veterinária. A perda de uma cadelinha de 11 anos, porém, fez com que percebesse o quanto seria doloroso, para ela, lidar profissionalmente com aquele sofrimento.
Na adolescência, outro desejo ganhou espaço. Dos 14 aos 18 anos, fez teatro e quis ser atriz. Durante esse período, a medicina chegou a ocupar o lugar de plano B.
A decisão mudou quando, diante do vestibular, começou a apresentar sintomas de ansiedade. A experiência a levou a reconhecer a importância de ajudar outras pessoas a se sentirem bem. Foi também nesse contexto que se aproximou da psiquiatria.
Na área escolhida, identificou a possibilidade de conhecer a pessoa por meio da conversa, de sua história e da maneira como vive o sofrimento.
“Você vê a pessoa por completo, você precisa conversar com ela”, afirma.
Retomar a autonomia
Hoje, no primeiro ano da residência, Lara encontra realização em acompanhar avanços que têm significado concreto no cotidiano dos pacientes.
Ela menciona uma pessoa que havia passado dois anos sem sair de casa por causa do pânico e começou a recuperar a confiança para atravessar uma avenida e pegar um ônibus sozinha.
Ao contar essa experiência, destaca a retomada da autonomia e da segurança. São mudanças que ajudam a explicar por que a psiquiatria se tornou sua escolha.
“A medicina hoje representa para mim uma oportunidade de contribuir de alguma forma com o bem-estar de outras pessoas.”
É nessa contribuição que Lara situa o sentido atual da profissão: participar de um processo em que alguém consegue voltar a realizar atividades importantes para a própria vida.
Uma conversa decisiva
Quando a pergunta é sobre uma experiência que ainda a emociona, Lara retorna a um atendimento em um posto de saúde.
A paciente apresentava dores persistentes e dificuldades em seguir o tratamento. No primeiro encontro, a médica encontrou uma relação de cuidado que precisava ser construída. Pediu que ela se sentasse para conversar e procurou compreender o que estava acontecendo, inclusive os motivos que a haviam afastado do acompanhamento hospitalar.
Com o tempo, segundo Lara, a confiança estabelecida ajudou a paciente a aceitar a realização de uma tomografia que antes recusava. A investigação identificou um câncer de pulmão com metástase óssea.
O vínculo continuou depois do diagnóstico. Lara participou dos cuidados paliativos no acompanhamento pela unidade de saúde e permaneceu envolvida no cuidado durante a evolução da doença. A paciente morreu em casa.
Ao revisitar a história, a médica se emociona com a confiança que aquela mulher passou a depositar nela. Recorda também que, no dia da conversa inicial, os atendimentos deveriam terminar às 11h30 e se estenderam até as 12h30.
“O fato de eu ter conseguido escutar ela fez toda a diferença”, conta.
Para Lara, essa lembrança está ligada a tudo o que veio depois: a realização dos exames, a descoberta da doença e a possibilidade de acompanhar a paciente em outra etapa do cuidado. A conversa permanece como um dos acontecimentos mais importantes de sua trajetória.
Aprender com novos recursos
Ao avaliar a evolução da medicina, Lara destaca os avanços no ensino e a incorporação de tecnologias à formação.
Em sua percepção, simuladores que reproduzem situações clínicas e ferramentas de inteligência artificial ampliam os recursos disponíveis para o aprendizado. Ela vê nessas mudanças possibilidades de apoio à preparação dos profissionais.
A avaliação parte de alguém que concluiu recentemente a graduação e segue em formação na residência. Em seu relato, o interesse pelos novos recursos aparece junto à importância atribuída à conversa e à compreensão de cada paciente.
Afetos fora do jaleco
Fora do trabalho, Lara mantém uma rotina ligada aos esportes. Pratica musculação e CrossFit, gosta de levantar peso e se interessa pelos desafios das atividades físicas.
É noiva, não tem filhos e aguarda a conclusão da residência para organizar os planos do casamento. Em casa, divide a vida com três gatos: Chico, Cindy e Theo. O afeto pelos animais, presente desde a infância, continua entre os primeiros assuntos que menciona ao se apresentar.
Outro lugar importante é ocupado pela mãe. Conversar com ela está entre seus momentos preferidos, e é à relação das duas que Lara recorre quando fala de inspiração e gratidão.
A médica descreve a mãe como sua “grande inspiração de vida” e como uma das principais razões de sua dedicação ao trabalho. A declaração acrescenta uma referência pessoal à trajetória que começou com diferentes possibilidades e encontrou direção na medicina.
O sentido de cuidar
Aos 29 anos, Lara ainda está construindo sua formação na área que escolheu. Já carrega, porém, experiências que ajudam a definir a profissional que deseja ser.
Em suas respostas, a satisfação aparece quando fala da autonomia recuperada por um paciente e da confiança construída com uma mulher que precisava de acompanhamento. São encontros que dão conteúdo à sua ideia de contribuir para o bem-estar de outras pessoas.
Na homenagem pelo Dia do Médico, sua história apresenta o início de uma carreira em que escutar ocupa um lugar central. É pela conversa que Lara procura compreender o sofrimento, estabelecer vínculos e participar do cuidado.
Acompanhe o especial “Médicos que cuidam de Fortaleza” e as trajetórias dos profissionais homenageados pelo Feed Fortaleza.
Oferecimento: Sindicato dos Médicos do Ceará.




