O Brasil se despede de uma atriz que não apenas acompanhou o nascimento da televisão, mas ajudou a construir a linguagem da dramaturgia nacional. Laura Cardoso morreu aos 98 anos, na noite de segunda-feira, 17 de agosto, em sua residência, no bairro do Sumaré, em São Paulo.
A atriz se sentiu mal por volta das 23h20 e morreu às 23h24, de causas naturais. A confirmação foi publicada pela família nas redes sociais oficiais da artista durante a madrugada desta terça-feira (18).
Nascida em 13 de setembro de 1927, Laura completaria 99 anos em menos de um mês. Sua partida encerra uma trajetória profissional iniciada ainda na adolescência e marcada por personagens que atravessaram gerações, formatos e diferentes fases da comunicação brasileira.
O que se sabe sobre a morte de Laura Cardoso
As informações confirmadas apontam que Laura Cardoso morreu em casa, em São Paulo, de causas naturais. Não houve anúncio de uma doença específica relacionada à morte da atriz.
O velório acontece nesta terça-feira (18), das 8h às 14h, no Funeral Home, no bairro da Bela Vista, região central da capital paulista. A cerimônia foi reservada para familiares e pessoas próximas, sem abertura ao público.
A despedida publicada no perfil oficial destacou que Laura permanecerá na memória e no coração de sua família. A atriz deixa as filhas Fernanda e Fátima, além de netos e bisnetos.

De Laurinda de Jesus a Laura Cardoso
Laura Cardoso nasceu Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, no bairro do Bixiga, em São Paulo. Filha de imigrantes portugueses, cresceu em uma família de origem humilde e descobriu ainda criança o prazer de representar.
Ela gostava de ler em voz alta, recitar para familiares e criar pequenas encenações. A decisão de seguir a carreira artística, no entanto, enfrentou resistência dentro de casa. Naquele período, ser atriz ainda era visto com preconceito por muitas famílias.
Aos 15 anos, Laura decidiu transformar a vocação em profissão. Em 1942, iniciou a carreira nas radionovelas da Rádio Cosmos. A experiência no rádio ajudou a formar uma atriz com domínio absoluto da voz, do ritmo e da interpretação, características que continuariam presentes em seus trabalhos na televisão, no teatro e no cinema.
Foi naquele ambiente que Laurinda passou a ser conhecida artisticamente como Laura Cardoso. O nome se tornaria uma das assinaturas mais respeitadas da cultura brasileira.
Uma pioneira da televisão brasileira
A estreia de Laura Cardoso na televisão aconteceu em 1952, no programa “Tribunal do Coração”, da TV Tupi. A televisão brasileira ainda estava em seus primeiros anos e as produções eram transmitidas ao vivo, exigindo concentração, memória e capacidade de improvisação.
Laura integrou durante cerca de 15 anos o elenco de teleteatros da emissora. Participou de adaptações de grandes obras literárias e de programas que ajudaram a estabelecer os primeiros padrões da dramaturgia televisiva no país.
Também passou por emissoras como Excelsior, Record, Cultura e Bandeirantes. Seu currículo reuniu mais de 100 produções e cerca de 60 novelas, números que ajudam a dimensionar sua longevidade, mas não explicam inteiramente a força de sua presença em cena.
Laura possuía uma habilidade rara: transformar personagens de apoio em centros emocionais das histórias. Mesmo quando não ocupava o protagonismo formal, criava mulheres que o público reconhecia, temia, amava ou carregava na memória.
Personagens que atravessaram gerações
Laura Cardoso estreou na Globo em 1981, na novela “Brilhante”, de Gilberto Braga. Na trama, interpretou Alda Sampaio, mãe da protagonista vivida por Vera Fischer.
Depois vieram produções como “Pão-Pão, Beijo-Beijo”, “Livre para Voar”, “Fera Radical”, “Rainha da Sucata” e “Felicidade”. Na década de 1990, consolidou personagens que permanecem vivos na memória afetiva dos telespectadores.
Em “Mulheres de Areia”, de 1993, Laura viveu Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel. A personagem transitava entre o carinho materno, a ingenuidade e uma preferência difícil de esconder pela filha mais ambiciosa. No ano seguinte, interpretou Guiomar em “A Viagem”, outro sucesso constantemente reprisado e redescoberto pelo público.
A atriz também integrou os elencos de “Irmãos Coragem”, “Explode Coração”, “Meu Bem Querer”, “Vila Madalena”, “A Padroeira”, “Esperança” e “Chocolate com Pimenta”.
Em “Caminho das Índias”, de 2009, Laura deu vida a Laksmi, matriarca de uma família indiana e mãe de Opash, personagem de Tony Ramos. A atuação reuniu autoridade, humor e ironia, colocando a personagem entre as figuras mais marcantes da novela.
A lista ainda inclui trabalhos em “Gabriela”, “Flor do Caribe”, “Império”, “Sol Nascente” e “O Outro Lado do Paraíso”. Seu último papel em uma novela foi Matilde, em “A Dona do Pedaço”, exibida em 2019.
Teatro, cinema e dublagem
A dimensão popular conquistada na televisão nunca limitou a carreira de Laura Cardoso. No teatro, trabalhou com diretores importantes e construiu uma trajetória reconhecida pela crítica.
Sua estreia no teatro adulto aconteceu em 1959, na peça “Plantão 21”, dirigida por Antunes Filho. Posteriormente, destacou-se em montagens como “Vem Buscar-me Que Ainda Sou Teu”, “Vereda da Salvação” e “A Última Sessão”.
No cinema, participou de produções como “Terra Estrangeira”, “Através da Janela”, “O Outro Lado da Rua” e “De Onde Eu Te Vejo”. Seus trabalhos renderam premiações e reafirmaram sua capacidade de interpretar personagens complexas sem recorrer a excessos.
Laura também teve passagem pela dublagem. Entre seus trabalhos mais conhecidos está a voz brasileira de Betty Rubble no desenho “Os Flintstones”, durante a década de 1960.
Ao longo da carreira, recebeu dezenas de reconhecimentos, incluindo prêmios Shell, APCA e Grande Otelo. Em 2002, conquistou o Troféu Mário Lago pelo conjunto da obra. Quatro anos depois, recebeu a Ordem do Mérito Cultural por sua contribuição às artes brasileiras.

O trabalho permaneceu até os últimos anos
Laura Cardoso nunca tratou a aposentadoria como uma possibilidade desejada. Para ela, atuar era parte essencial da própria vida. Mesmo afastada das novelas depois de 2019, continuou participando de projetos e homenagens.
Em 2024, teve sua trajetória celebrada em um episódio do programa “Tributo”. Já em 2025, protagonizou o curta-metragem “Dona Rosinha”, no qual interpretou uma mulher idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus.
O trabalho colocou Laura novamente diante das câmeras e abordou um tema social diretamente relacionado à velhice, ao abandono e à necessidade de acolhimento.
Em outubro de 2025, a atriz participou da inauguração da Calçada da Fama dos Estúdios Globo e ganhou uma estrela em reconhecimento à sua contribuição para a televisão. Também gravou a tradicional mensagem de fim de ano da emissora.
O legado de uma atriz insubstituível
Laura Cardoso esteve presente quando a televisão brasileira ainda descobria como contar histórias. Passou pelas transmissões ao vivo, pela consolidação das novelas, pela expansão do cinema nacional e pela transformação tecnológica do audiovisual.
Sua força não estava apenas na longevidade. Estava na disciplina, na entrega e na capacidade de criar verdade em qualquer personagem. Laura fazia com que cada mulher interpretada tivesse uma história anterior à primeira cena e uma vida que parecia continuar depois do último capítulo.
Ela não atravessou a dramaturgia como coadjuvante, mesmo quando o roteiro reservava esse lugar para suas personagens. Em cena, Laura Cardoso sempre ocupou o espaço de uma grande atriz.
A morte encerra uma presença física, mas não apaga uma obra que continua sendo exibida, estudada e redescoberta. Laura permanece nos rostos, nas vozes e nas histórias das mulheres brasileiras que ajudou a levar para a televisão, o teatro e o cinema.
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