Circuito Ceará: Teatro para Bebês em Foco realiza apresentações gratuitas, oficinas e ações inclusivas para a primeira infância em oito municípios
O teatro voltado para a primeira infância ganha uma nova circulação no Ceará com o projeto “Circuito Ceará: Teatro para Bebês em Foco”, que leva apresentações gratuitas, oficinas formativas e ações de acessibilidade para creches, escolas infantis e comunidades escolares de Fortaleza e da Região Metropolitana. A iniciativa, concebida pela artista Aline Campêlo, percorre oito municípios cearenses durante o mês de junho, ampliando o acesso de crianças pequenas a experiências artísticas pensadas especialmente para suas formas de percepção, escuta, movimento e imaginação.
Contemplado no 14º Edital Ceará das Artes, na linguagem Teatro, da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, o circuito tem como principal eixo a circulação do espetáculo “D. Menina”, montagem do K’Os Coletivo voltada para bebês a partir de seis meses de idade. Além das apresentações, o projeto realiza oficinas de brincadeiras populares e uma formação específica sobre acessibilidade cultural, reforçando o papel da arte como linguagem de desenvolvimento, vínculo e inclusão desde os primeiros anos de vida.
A programação começou no dia 8 de junho, em Pindoretama, e segue por Eusébio, Itaitinga, Horizonte, Fortaleza, Pacajus, Chorozinho e Cascavel. Ao todo, serão realizadas 18 apresentações gratuitas do espetáculo e 18 oficinas, com ações direcionadas a crianças, educadores, artistas e equipes envolvidas com processos culturais para as infâncias.
Primeira infância no centro da cena

O “Circuito Ceará: Teatro para Bebês em Foco” parte de uma ideia cada vez mais discutida na educação, na cultura e nas políticas públicas: bebês e crianças pequenas também são público da arte. Mais do que espectadores passivos, eles percebem o mundo por meio do corpo, dos sons, das cores, dos ritmos, dos gestos, dos afetos e das relações que constroem com o ambiente ao redor.
Nesse contexto, o teatro para bebês propõe uma experiência cênica diferente dos formatos tradicionais. A narrativa não depende apenas da palavra falada, mas de estímulos sensoriais, musicalidade, imagens, silêncios, aproximações, repetições e pequenas descobertas. A cena é construída para respeitar o tempo da criança e favorecer uma relação direta entre artistas e público.
O projeto tem como público prioritário bebês e crianças de creches municipais e instituições infantis, especialmente na faixa etária entre 2 e 4 anos. A proposta fortalece o entendimento de que o contato com a arte na infância contribui para o desenvolvimento sensível, afetivo, cognitivo, motor e imaginativo.
“D. Menina” aposta em poesia, música e experiência sensorial

Um dos principais destaques do circuito é o espetáculo “D. Menina”, considerado um dos primeiros trabalhos de teatro para bebês produzidos no Ceará. A montagem é voltada para crianças a partir de seis meses e tem duração aproximada de 30 minutos.
Inspirada em estudos do pesquisador teatral e diretor Carlos Laredo, a peça utiliza linguagem não verbal, musicalidade ao vivo, poesia imagética e estímulos sensoriais para criar uma experiência delicada e intimista. O formato aproxima as crianças da cena, colocando o público no mesmo nível dos artistas e da musicista, o que favorece a interação e a escuta.
Cada sessão recebe até 50 crianças, posicionadas próximas ao espaço cênico. Essa escolha reduz a distância entre plateia e espetáculo e transforma a apresentação em um encontro sensível, no qual olhar, movimento, som e presença têm papel fundamental.
Em cena, a personagem conduzida pelo Palhaço Pipiu, criação do artista Aldrey Rocha, apresenta um universo de descobertas, brincadeiras, vínculos e afetos construídos a partir de elementos simples do cotidiano. Além de atuar na montagem, Aldrey Rocha assina a direção cênica do espetáculo, em diálogo com pesquisas ligadas ao teatro, à comicidade, à música e à infância.
Arte como direito das crianças
Ao circular por creches e instituições infantis, o projeto amplia o debate sobre acesso à cultura na primeira infância. A presença do teatro nesses espaços permite que crianças que muitas vezes ainda não frequentam salas de espetáculo tenham contato direto com uma obra artística construída para elas.
A iniciativa também reforça a importância de compreender a cultura como direito desde os primeiros anos de vida. Para bebês e crianças pequenas, experiências artísticas podem contribuir para a percepção do próprio corpo, a ampliação do repertório sensível, o fortalecimento dos vínculos com educadores e colegas e a construção de novas formas de expressão.
A escolha por realizar as sessões em instituições de ensino infantil aproxima o projeto da rotina escolar e cria oportunidades de diálogo com educadores. Dessa forma, a ação ultrapassa o momento da apresentação e pode inspirar novas práticas pedagógicas relacionadas à arte, ao brincar e à escuta das crianças.
Oficinas valorizam brincadeiras populares e cultura oral
Além das apresentações teatrais, o circuito realiza 18 sessões da oficina “Jogos, Cantigas e Brincadeiras Populares para a Infância”. As atividades acontecem nas instituições participantes e buscam estimular oralidade, criatividade, ritmo, coordenação motora, memória afetiva e convivência por meio de brincadeiras tradicionais.
Cada oficina terá duração de uma hora/aula e atenderá grupos de até 20 participantes. A proposta valoriza cantigas, jogos e práticas transmitidas entre gerações, aproximando crianças e educadores de referências da cultura popular oral.
Em um contexto marcado pelo uso intenso de telas e pela aceleração da rotina, o resgate das brincadeiras populares ganha relevância pedagógica e cultural. As atividades favorecem o contato corporal, a escuta coletiva, a imaginação e o vínculo com expressões tradicionais da infância brasileira.
A oficina também oferece caminhos para que educadores incorporem essas práticas em suas atividades cotidianas, fortalecendo experiências simples, acessíveis e potentes dentro das creches e escolas infantis.
Acessibilidade cultural é eixo central do circuito
A democratização do acesso à cultura e a inclusão estão entre os pilares do projeto. Das 18 sessões previstas do espetáculo e das oficinas, 10 contarão com recursos de acessibilidade voltados para pessoas surdas ou ensurdecidas, cegas, pessoas com Transtorno do Espectro Autista, deficiência intelectual e deficiência múltipla.
Entre os recursos previstos estão intérpretes de Libras, audiodescrição, legendas em materiais audiovisuais, autodescrição em conteúdos digitais e abafadores auriculares para pessoas com TEA. O projeto também prioriza espaços com acessibilidade arquitetônica, como rampas de acesso e piso tátil.
Em Fortaleza, parte da programação será direcionada especificamente para instituições que atendem pessoas cegas e integrantes da comunidade TEA. A medida reforça o compromisso do circuito com uma prática cultural que reconhece diferentes formas de presença, percepção e participação.
A acessibilidade, nesse caso, não aparece como complemento, mas como parte da estrutura do projeto. A proposta é garantir que a experiência artística possa ser vivida por diferentes públicos, respeitando necessidades específicas e ampliando a participação de crianças, educadores e famílias.
Formação “Acessibilidade em Foco” amplia debate
Outra ação prevista é a formação “Acessibilidade em Foco”, que será realizada no município de Eusébio. A atividade é destinada à equipe do projeto, artistas, educadores e pessoas interessadas maiores de 18 anos.
A formação oferecerá orientações sobre práticas acessíveis em projetos culturais voltados às infâncias, contribuindo para qualificar profissionais e estimular novas ações inclusivas no campo artístico. As informações sobre inscrições podem ser consultadas no perfil do K’Os Coletivo no Instagram, em @kos.coletivo.
A iniciativa reforça a importância de pensar acessibilidade desde a concepção dos projetos culturais. No caso das ações para a infância, esse cuidado se torna ainda mais relevante, já que envolve públicos em processo de desenvolvimento, educadores e instituições com diferentes realidades de atendimento.
K’Os Coletivo aprofunda pesquisa com bebês
O “Circuito Ceará: Teatro para Bebês em Foco” também marca a continuidade das pesquisas desenvolvidas pelo K’Os Coletivo, grupo criado em 2006 e reconhecido por trabalhos nas áreas de palhaçaria, improvisação teatral, comédia e teatro para bebês.
Ao longo da trajetória, o coletivo participou de festivais nacionais e internacionais, com apresentações em países como Portugal, Argentina e Colômbia. Com “D. Menina”, o grupo aprofundou a investigação sobre experiências cênicas voltadas à primeira infância, explorando linguagens que dialogam com o universo sensível dos bebês e das crianças pequenas.
A equipe do projeto reúne os artistas e profissionais Aldrey Rocha, Aline Campêlo, Fernanda Luz e Rebeka Lúcio. A circulação amplia a presença do grupo em territórios educativos e culturais, fortalecendo a formação de público desde a infância e incentivando o reconhecimento do teatro para bebês como campo artístico de pesquisa, criação e política pública.
Cultura, educação e infância em diálogo
Ao reunir apresentações, oficinas e formação, o circuito cria uma ponte entre cultura, educação e assistência às infâncias. A iniciativa mostra que o acesso à arte pode ser estruturado de forma integrada, envolvendo crianças, educadores, artistas, escolas, famílias e instituições públicas.
A circulação por oito municípios também contribui para descentralizar a oferta cultural, levando atividades gratuitas para além dos espaços tradicionais de apresentação. Em vez de esperar que o público chegue ao teatro, o projeto leva a cena até os lugares onde as crianças estão.
Esse movimento fortalece a ideia de que a primeira infância deve ocupar lugar de prioridade nas políticas culturais. Ao reconhecer bebês e crianças pequenas como sujeitos de direitos, o projeto amplia o alcance da arte e contribui para uma sociedade mais sensível, inclusiva e atenta às diferentes formas de expressão.
Circuito segue até 19 de junho
Com início em Pindoretama, no dia 8 de junho, o “Circuito Ceará: Teatro para Bebês em Foco” segue com atividades até 19 de junho, passando por municípios da Região Metropolitana e por Fortaleza. A programação inclui sessões em creches, escolas e instituições infantis, com foco na experiência artística, na formação e na acessibilidade.
A etapa reforça a potência do teatro como linguagem de encontro. Para as crianças, representa a possibilidade de viver uma experiência sensorial e afetiva pensada para sua idade. Para educadores e artistas, abre caminhos para refletir sobre práticas de criação, mediação e cuidado. Para as cidades participantes, fortalece o acesso gratuito à cultura e valoriza a infância como território de imaginação, presença e futuro.
Com “D. Menina” e suas ações formativas, o circuito reafirma que a arte para bebês não é uma versão reduzida do teatro adulto. É uma linguagem própria, delicada e exigente, que reconhece a criança como público potente desde os primeiros anos de vida.
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