Presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará, pediatra, dermatologista e escritor, ele construiu uma trajetória que une assistência médica, sensibilidade humana e defesa do acesso à saúde. Uma história vivida durante a formação ajuda a compreender o propósito que orienta sua atuação.
Há lembranças que o tempo não apaga. Para o médico Edmar Fernandes, uma delas tem o rosto de uma jovem de 26 anos, internada em um hospital público de Fortaleza, à espera de exames que poderiam definir os próximos passos de seu tratamento contra o câncer.
Durante uma passagem pelo Hospital Geral Dr. César Cals, enquanto acompanhava o médico e professor Otto, Edmar presenciou uma situação que transformaria sua compreensão sobre as desigualdades no acesso à saúde. A paciente precisava de exames, mas as tentativas de agendamento esbarravam na indisponibilidade de vagas. Os dias passavam, e as respostas continuavam as mesmas.
Até que, diante da situação, o professor começou a chorar.
“Porque ela é mulher, porque é negra, porque é pobre, porque não tem ninguém por ela”, recorda Edmar, ao reproduzir as palavras que ouviu naquela ocasião.
O médico temia que a demora comprometesse as possibilidades de tratamento da jovem, cuja doença, segundo a lembrança de Edmar, poderia ser tratável. O desfecho daquela história não foi informado, mas o impacto permanece.
Anos depois, Edmar ainda compartilha o episódio em palestras. Não como uma lembrança isolada da formação médica, mas como uma das experiências que ajudaram a definir sua maneira de enxergar a profissão.
Hoje, à frente do Sindicato dos Médicos do Ceará, ele encontra na representação profissional um caminho para defender uma convicção construída ao longo da carreira: a qualidade do atendimento à população também depende das condições oferecidas a quem cuida dela.
Uma trajetória construída entre escolhas e recomeços
Fortalezense, Edmar Fernandes iniciou sua graduação em Medicina na Universidade Federal da Bahia, em Salvador, cidade para onde sua família havia se mudado em razão da atividade profissional do pai, gerente bancário.
Durante o curso, uma nova transferência familiar o levou a Recife. Edmar solicitou sua mudança para a Universidade de Pernambuco, onde concluiu a graduação em 1999.
O percurso foi marcado por adaptações e períodos de distância da família. Seu pai acabou retornando a Fortaleza, enquanto ele permaneceu em Pernambuco para concluir a formação.
A experiência exigiu independência e perseverança, características que posteriormente acompanhariam sua trajetória profissional.
Em 2004, ingressou na residência médica em Pediatria, no Hospital Geral de Fortaleza (HGF), concluída em 2006. A escolha tinha relação direta com o interesse pela atenção primária e pela compreensão da saúde em diferentes fases da vida.
Para Edmar, conhecer o universo infantil representava a possibilidade de ampliar sua capacidade de compreender os pacientes e as particularidades do cuidado.
Dois anos depois, iniciou uma nova residência, dessa vez em Dermatologia, concluída em 2011.
O interesse pela especialidade nasceu da compreensão de que a pele pode revelar manifestações de diferentes condições do organismo e de que as doenças dermatológicas também afetam a autoestima, as relações sociais e a qualidade de vida.
As duas especialidades contribuíram para construir uma visão abrangente da medicina, na qual o diagnóstico precisa considerar o indivíduo em sua totalidade.
A formação continuou com um MBA em Gestão da Saúde pela Fundação Getulio Vargas e um mestrado em Saúde Coletiva pela Universidade de Fortaleza (Unifor).
A aproximação com a gestão e a saúde pública ampliou seus interesses para questões relacionadas à organização dos serviços, à administração de recursos e às condições de atendimento oferecidas à população.
O médico que também encontra espaço para a poesia
A identidade de Edmar não se resume à atividade profissional.
Pai de Ingrid, de 24 anos, e Geraldo Neto, de 22, ele valoriza a convivência familiar e prefere uma rotina reservada, com programas culturais, cinema, teatro e encontros com amigos.
Divorciado, mora com a filha, que tem três gatos.
No tempo livre, mantém uma relação próxima com o esporte. Pratica kitesurf há cerca de duas décadas, tiro esportivo há 12 anos e também inclui CrossFit, musculação e corridas em sua rotina.
Na literatura, encontrou outra maneira de expressar sentimentos e observar o mundo.
Escritor, participou de diversas antologias e publicou um livro de poesias que, segundo relata, recebeu uma premiação em Genebra, na Suíça. Também integra a Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.
A sensibilidade presente na escrita encontra correspondência na maneira como descreve a medicina.
Para ele, exercer a profissão exige compreender aquilo que nem sempre aparece nos exames: os medos, as dúvidas, as angústias e as circunstâncias pessoais de quem procura atendimento.
É uma responsabilidade que envolve conhecimento técnico, capacidade de decisão e atenção às consequências de cada conduta.
A medicina e o peso das decisões
Depois de anos dedicados à assistência, Edmar afirma que a medicina continua sendo uma profissão capaz de transformar profundamente a vida das pessoas.
Essa possibilidade, no entanto, carrega uma responsabilidade que considera particularmente elevada.
Um diagnóstico equivocado ou uma decisão inadequada podem trazer consequências irreversíveis. Por isso, defende que o exercício da profissão exige preparação contínua, sensibilidade e prudência.
A experiência acumulada ao longo da carreira também modificou a amplitude de sua atuação.
Se antes sua rotina estava concentrada no atendimento individual, a participação na representação médica passou a permitir que contribuísse para discutir as condições de funcionamento de serviços inteiros.
Ao falar sobre valorização profissional, Edmar faz uma associação direta entre médicos e pacientes.
Salários pagos em dia, medicamentos disponíveis, equipes suficientes, segurança e estrutura adequada são, em sua avaliação, condições que favorecem tanto o exercício da medicina quanto a qualidade da assistência.
É essa relação que ajuda a explicar sua atuação à frente da categoria.
Entre os avanços da saúde e os desafios que permanecem
Ao avaliar a evolução da medicina no Ceará, Edmar reconhece avanços importantes na descentralização da assistência.
A expansão dos hospitais regionais, com unidades no Cariri, em Sobral, no Vale do Jaguaribe e no Sertão Central, permitiu que determinados atendimentos fossem realizados com maior proximidade das comunidades do interior.
A ampliação das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) também contribuiu para distribuir a demanda por serviços de urgência e emergência, anteriormente mais concentrada nos grandes hospitais.
Outro exemplo citado é a expansão da oferta de hemodiálise em diferentes regiões do estado, reduzindo a necessidade de deslocamento de pacientes até Fortaleza.
Para o médico, essas mudanças representam conquistas relevantes, mas ainda insuficientes diante das necessidades da população.
A saúde mental está entre suas principais preocupações.
Edmar aponta a insuficiência de profissionais, a dificuldade de acompanhamento regular e a sobrecarga dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) como obstáculos para a ampliação da assistência.
Na pediatria, demonstra preocupação com a sustentabilidade financeira das unidades hospitalares e com a disponibilidade de serviços especializados.
Sua avaliação considera que ampliar estruturas físicas é apenas parte do desafio. Garantir equipes, medicamentos, recursos e continuidade dos atendimentos é igualmente necessário para que a população tenha acesso efetivo aos serviços.

Presidente do Sindicato dos Médicos do Ceará
Da assistência individual à presidência do Sindicato dos Médicos
À frente do Sindicato dos Médicos do Ceará, Edmar desenvolve uma atuação voltada à valorização dos profissionais e à melhoria das condições de assistência à população.
Sua trajetória na representação médica inclui uma passagem anterior pela presidência da entidade, entre 2018 e 2021. Em janeiro de 2025, retornou ao cargo após uma mudança na direção do sindicato.
A atividade envolve negociações com gestores públicos, reuniões com administrações hospitalares, acompanhamento de denúncias e, quando necessário, medidas administrativas e judiciais.
Entre as situações mencionadas por Edmar está a mobilização em defesa da Santa Casa de Misericórdia de Fortaleza.
Em 2018, diante das dificuldades financeiras e das restrições que comprometiam a realização de cirurgias, o sindicato participou de manifestações cobrando melhorias nas condições de funcionamento da instituição. Naquele período, o Governo do Ceará anunciou um aporte de R$ 10 milhões para apoiar o hospital e ampliar a realização de procedimentos.
O episódio é lembrado por ele como exemplo da importância da mobilização coletiva na defesa da assistência.
Outra preocupação envolve o Hospital Infantil SOPAI, em Fortaleza.
Em outubro de 2026, atrasos na remuneração dos médicos e problemas relacionados às condições de trabalho passaram a comprometer setores de atendimento da instituição.
A atuação sindical tem buscado a regularização dos pagamentos e medidas que assegurem a continuidade dos serviços, especialmente diante da importância da unidade para a assistência pediátrica e a saúde mental infantojuvenil.
Para Edmar, situações como essas demonstram que a defesa das condições de trabalho precisa considerar suas consequências para pacientes e familiares.
Propostas para ampliar o alcance da assistência
A participação na representação médica também aproximou Edmar da formulação de propostas voltadas à organização do sistema de saúde.
Entre as iniciativas defendidas está a ampliação da presença de especialistas em Ortopedia e Traumatologia nas UPAs, com o objetivo de resolver casos menos complexos e reduzir a sobrecarga dos hospitais distritais de Fortaleza.
Outra proposta envolve a ampliação da assistência em saúde mental nos postos de saúde, incluindo o atendimento psiquiátrico na atenção primária.
Na avaliação do médico, essa organização permitiria acompanhar casos de menor complexidade perto da residência dos pacientes, enquanto os serviços especializados concentrariam maior atenção nas situações que exigem acompanhamento intensivo.
Ele também destaca iniciativas de valorização dos médicos residentes, discussões sobre remuneração profissional e propostas de proteção a trabalhadores da saúde neurodivergentes.
Sua atuação ultrapassa as fronteiras do Ceará por meio da Federação Nacional dos Médicos (Fenam), na qual participa de debates relacionados à formação e à defesa profissional.
Entre as pautas nacionais estão a valorização da carreira médica e a discussão sobre um piso salarial para a categoria.
Edmar considera essa articulação entre as esferas municipal, estadual e federal fundamental para enfrentar problemas que não podem ser resolvidos isoladamente.
Uma lembrança que continua orientando o futuro
Entre reuniões, atendimentos, compromissos institucionais e projetos, Edmar reconhece que gostaria de dispor de ainda mais tempo para se dedicar às iniciativas que considera importantes.
A rotina intensa exige equilíbrio com a convivência familiar, a literatura e as atividades que encontra fora da medicina.
Mas, quando questionado sobre o sentido de sua trajetória, é àquela jovem paciente, atendida anos atrás no Hospital César Cals, que sua memória retorna.
A imagem do professor emocionado diante das dificuldades para conseguir exames continua presente como uma lembrança dos limites que a desigualdade impõe ao cuidado.
É também uma história que ajuda a compreender sua defesa de uma medicina capaz de alcançar as pessoas independentemente de sua condição social.
Na semana do Dia do Médico, celebrado em 18 de outubro, a trajetória de Edmar Fernandes revela diferentes dimensões de uma mesma profissão: o médico que diagnostica, o professor que se emociona, o escritor que transforma sentimentos em palavras e o representante que procura ampliar as condições para que o cuidado aconteça.
Entre a prática clínica e a atuação coletiva, permanece uma convicção: a medicina cumpre seu propósito quando a oportunidade de receber cuidado não depende da condição de quem precisa dele.




