Setor ainda é majoritariamente masculino no Brasil, mas presença feminina cresce em áreas de engenharia, gestão e operações; na MRV no Ceará, mulheres já representam cerca de 20% do quadro

A construção civil, historicamente marcada pela predominância masculina, começa a registrar uma mudança gradual no perfil de sua força de trabalho. No Ceará, mulheres vêm ampliando a presença em funções técnicas, na gestão de equipes e diretamente nos canteiros, ocupando espaços que durante décadas permaneceram concentrados entre profissionais homens.
O avanço ocorre em um cenário nacional no qual a participação feminina ainda é reduzida. Dados da Relação Anual de Informações Sociais de 2024 mostram que as mulheres correspondiam a 11,5% da força de trabalho formal da construção civil brasileira, com 338.858 trabalhadoras, diante de mais de 2,6 milhões de homens. O número de mulheres com carteira assinada no setor cresceu 184% entre 2006 e 2023. (CBIC)
Embora a diferença ainda seja expressiva, os indicadores revelam uma transformação que começa a chegar também a posições de maior responsabilidade.
Liderança dentro dos canteiros
No Ceará, um dos exemplos desse movimento está na operação da MRV. Segundo a empresa, aproximadamente 20% do quadro no estado é formado atualmente por mulheres, considerando profissionais de engenharia, gestão e atividades diretamente relacionadas às obras.
Entre elas está a engenheira civil Mariana Diógenes, que soma nove anos de atuação na companhia e trabalha na condução de equipes em um ambiente que continua sendo predominantemente masculino.
A rotina envolve decisões sobre planejamento, execução, controle de processos e administração de equipes numerosas. Nesse cenário, a engenheira destaca que a construção da autoridade profissional depende menos de imposição e mais da relação estabelecida diariamente com os trabalhadores.
“Enfrentamos desafios diários no canteiro, mas conduzo a equipe com diálogo aberto, transparência e confiança. Prego o respeito mútuo com cada trabalhador e sinto que o time retribui com os mesmos valores, fortalecendo a rotina e desconstruindo estigmas na prática”, afirma Mariana.
A presença feminina nesse tipo de função também amplia a discussão sobre diversidade para além da contratação. O desafio passa a envolver permanência, desenvolvimento de carreira e criação de condições para que mulheres avancem em diferentes níveis da estrutura das empresas.
Ceará amplia debate sobre inclusão
O movimento também aparece nas relações trabalhistas do próprio setor cearense.
A Convenção Coletiva de Trabalho 2026/2027 registrada no Ministério do Trabalho e Emprego para a construção civil no Ceará dedica uma cláusula específica ao estímulo à contratação e à retenção de mulheres.
O documento prevê ações para combater discriminação, incentivar qualificação e requalificação profissional feminina e ampliar a inclusão no setor. Também recomenda adequações nas áreas de vivência dos canteiros e campanhas de conscientização contra assédio e violência contra mulheres. (Mediador)
A discussão acompanha um desafio nacional. Apesar do crescimento das contratações, a própria Câmara Brasileira da Indústria da Construção avalia que a participação feminina ainda avança lentamente e encontra barreiras culturais e estruturais, principalmente nas funções operacionais. (CBIC)
Ao mesmo tempo, iniciativas de capacitação e formação vêm tentando acelerar essa mudança. Entre elas está o projeto Elas Constroem, desenvolvido pela CBIC em parceria com o SENAI para conectar qualificação profissional, encaminhamento produtivo e contratação de mulheres. (CBIC)
De exceção a parte da operação
A ampliação da presença feminina muda também a percepção sobre quais funções podem ser ocupadas por mulheres dentro de uma obra.
Além de áreas administrativas, arquitetônicas e de atendimento ao cliente, profissionais passaram a ocupar com maior frequência posições ligadas a engenharia, planejamento, segurança, acompanhamento técnico e liderança de equipes.
Na avaliação de Mariana Diógenes, competências essenciais da construção civil não dependem de gênero, mas de preparação técnica e capacidade de gestão.
“Quando falamos de construção civil, falamos de planejamento, resiliência, gestão de equipes e precisão. Mas, acima de tudo, falamos de pessoas que colocam técnica e paixão para transformar projetos em realidade”, afirma.
Para ela, a presença feminina também tem efeito simbólico sobre novas profissionais que ingressam no mercado.
“Às mulheres que fazem essa engrenagem girar todos os dias: vocês desafiam padrões, ocupam espaços com excelência e erguem o futuro com as próprias mãos”, completa.
Canteiro também vira espaço de conscientização
A transformação dos ambientes de trabalho também passa por ações que aproximam a rotina das obras de temas relacionados à saúde e à qualidade de vida.
Durante outubro, a MRV promove atividades relacionadas ao Outubro Rosa nos canteiros, com orientações sobre prevenção, diagnóstico precoce e cuidados relacionados ao câncer de mama.
As ações são destinadas a homens e mulheres, buscando ampliar a circulação das informações não apenas entre os trabalhadores, mas também entre seus familiares.
A iniciativa reforça uma mudança que vai além dos números. À medida que mais mulheres chegam aos canteiros e assumem funções técnicas e de comando, empresas e entidades do setor passam a discutir também estruturas de acolhimento, combate ao assédio, oportunidades de qualificação e condições para crescimento profissional.
Ainda distante de uma representação equilibrada, a construção civil começa a revelar um cenário diferente daquele que por décadas associou as obras quase exclusivamente à mão de obra masculina.
No Ceará, a presença de engenheiras em posições de liderança mostra que essa transformação já chegou ao cotidiano dos empreendimentos e que o próximo desafio será fazer com que a ampliação deixe de ser exceção para se tornar parte permanente da estrutura do setor.
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