Espetáculo Trunqueiras reúne teatro, dança e performance em uma experiência inspirada nas tradições dos povos de terreiro; apresentação acontece nesta sexta-feira (11), com entrada gratuita e acessibilidade em Libras

O espetáculo Trunqueiras chega ao Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, em Fortaleza, nesta sexta-feira, 11 de setembro, às 18h30, com uma montagem que atravessa teatro, dança e performance para abordar paixão, espiritualidade, ancestralidade e força feminina. Realizada pela Afiá Coletiva, a apresentação terá entrada gratuita, classificação indicativa de 16 anos e acessibilidade em Libras.
A obra utiliza como um de seus principais pontos de partida o arquétipo da Pomba Gira, figura presente nas religiões de matriz africana e associada, dentro da construção proposta pelo espetáculo, a características como coragem, sagacidade, atrevimento e autoamor. A partir desse universo, os artistas desenvolvem uma dramaturgia corporal que combina estados de presença, gestos, sons, objetos e referências da cultura popular.
Mais do que apresentar uma narrativa linear, Trunqueiras constrói uma experiência cênica em que corpo, espiritualidade e memória se encontram. A montagem busca aproximar o público de um universo no qual o sagrado e o cotidiano dialogam por meio da dança, da música, da performance e de diferentes elementos sensoriais.
Corpo, terreiro e encruzilhada

No palco, os intérpretes-criadores constroem o que a Afiá Coletiva define como uma espécie de “terreirada cênica”. O terreiro é compreendido não apenas como espaço físico, mas como território de energia, convivência, criação de vínculos, memória e manifestação simbólica.
Esse entendimento aparece na movimentação dos corpos, nas relações estabelecidas entre os artistas e também nos elementos utilizados durante a apresentação. As saias ganham protagonismo e ajudam a construir imagens ligadas a encantamentos, mistérios, celebrações e às diversas formas pelas quais a ancestralidade atravessa a cena.
A rua também ocupa lugar importante na dramaturgia. Ela surge como território das encruzilhadas e das diferentes possibilidades de escolha, encontro e transformação. Dentro dessa construção simbólica, a montagem apresenta momentos de limpeza, entrega e devoção, além de referências a Dona Sete Saias, Pomba Gira Diná e às Lebaras.
A presença dessas figuras contribui para uma leitura sobre mulheres que rompem limites, enfrentam caminhos e afirmam a própria existência. A força feminina aparece, portanto, não somente como tema, mas como elemento estruturante da linguagem desenvolvida pelo espetáculo.
Saias, tambor e referências da cultura popular
Parte da identidade visual e corporal de Trunqueiras nasce do movimento circular das saias. A escolha estabelece conexões com manifestações tradicionais da cultura popular do Maranhão, especialmente o cacuriá e os movimentos presentes no tambor de crioula.
Ao aproximar essas referências de uma construção cênica contemporânea, a Afiá Coletiva cria um encontro entre diferentes temporalidades. Tradição e experimentação aparecem lado a lado, sem que uma precise anular a outra.
A música também ocupa papel fundamental na montagem. O tambor ajuda a estabelecer a atmosfera ritual que atravessa o espetáculo, enquanto uma composição eletrônica é executada em tempo real.
A dramaturgia sonora ainda incorpora pontos cantados, sussurros, gargalhadas, grunhidos e músicas ligadas ao cacuriá. Os diferentes recursos formam uma paisagem sonora pensada para acompanhar as transformações dos corpos e das cenas.
Esse diálogo entre tradição popular e experimentação amplia a proposta artística do espetáculo, que evita separar rigidamente dança, teatro, música e performance. As linguagens se misturam e passam a funcionar como partes de uma mesma experiência.
Uma montagem que também passa pelos sentidos
A dimensão sensorial é outro aspecto central de Trunqueiras. Ervas, mel, cachaça, velas, fumaças de limpeza e facas estão entre os materiais incorporados à cena e participam das relações construídas pelos artistas.
Mais do que elementos cenográficos, esses objetos assumem significados dentro da dramaturgia e são tratados pela montagem como objetos de força.
Sons, cheiros, luzes, fumaças e alterações na atmosfera ajudam a conduzir o público por uma experiência que ultrapassa a observação visual. A proposta é fazer com que cada espectador estabeleça uma relação própria com aquilo que acontece no palco.
A paixão também atravessa essa construção. Ela aparece em diferentes estados, como arrebatamento, desejo, perda da razão, riso, festa e entrega. Dessa forma, a montagem coloca sentimentos e espiritualidade em uma mesma zona de investigação artística.
Encontro entre artistas do Ceará e Maranhão
A criação também estabelece uma ponte entre Ceará e Maranhão. Artistas dos dois estados integram a equipe, ampliando o intercâmbio entre referências culturais, experiências pessoais e diferentes modos de expressão.
A produção geral é de Mandu Ka’apor, do Maranhão. A chamada Cavalaria Cênica reúne Mandu e a cearense Lara Xerez. Ilton Rodrigues responde pela Ogãn Cênica, enquanto Ruan Siccor assina a dramaturgia e a operação de som. A operação de luz é de Yanka Leandra e os figurinos são assinados por Amorfas e Nana Sá.
Ao reunir esses profissionais, Trunqueiras coloca em diálogo manifestações populares, religiosidade, ancestralidade, performance e pesquisa corporal, criando uma obra que se posiciona entre diferentes linguagens artísticas.
O espetáculo é um projeto apoiado pelo X Edital das Artes de Fortaleza, da Secretaria Municipal da Cultura de Fortaleza, Secultfor.
A apresentação desta sexta-feira amplia o acesso do público fortalezense a uma montagem que utiliza o palco como espaço para discutir identidade, força feminina, espiritualidade e as maneiras pelas quais tradições ancestrais continuam sendo ressignificadas pela arte contemporânea.
Serviço
Espetáculo: Trunqueiras
Data: sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Horário: 18h30
Local: Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno
Endereço: Avenida da Universidade, 2210, Benfica, Fortaleza
Entrada: gratuita
Classificação indicativa: 16 anos
Acessibilidade: Libras
Realização: Afiá Coletiva
Instagram: @afiacoletiva
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