Planejamento, ordenha correta e armazenamento seguro ajudam mães a manter o aleitamento materno mesmo depois do retorno às atividades profissionais
A amamentação no trabalho pode ser mantida mesmo após o fim da licença-maternidade, desde que a mulher tenha acesso à informação, planejamento e condições adequadas para retirar e armazenar o leite. Durante o Agosto Dourado, mês dedicado à conscientização sobre o aleitamento materno, especialistas reforçam que a volta à rotina profissional não precisa representar o desmame.
O retorno ao trabalho é considerado um período especialmente delicado para a continuidade da amamentação. A separação entre mãe e bebê por várias horas, a mudança na rotina, o cansaço e a falta de espaços apropriados para a ordenha estão entre os fatores que podem dificultar o processo.
Para a enfermeira obstetra do Hospital Madrecor, da Hapvida, Miriam de Souza Santos Silva, a organização antecipada pode ajudar a tornar essa transição mais tranquila.
“O retorno ao trabalho pode ser emocionalmente desafiador e a rotina pode interferir na amamentação, principalmente se a mãe passa muitas horas sem amamentar ou ordenhar. O mais importante é manter o estímulo das mamas e buscar apoio”, explica.
Dados nacionais recentes mostram avanços na amamentação exclusiva. Em 2025, 57% dos bebês de até seis meses acompanhados pela Atenção Primária à Saúde estavam em aleitamento materno exclusivo. Dados parciais de 2026, contabilizados até agosto, elevaram esse percentual para 59%.
A orientação é que o bebê receba exclusivamente leite materno durante os primeiros seis meses de vida. Depois desse período, a alimentação complementar deve ser introduzida, mas a amamentação pode continuar até os dois anos ou mais.
Preparação para a amamentação no trabalho pode começar antes
Uma das principais recomendações para mães que pretendem continuar amamentando é iniciar a preparação cerca de 15 dias antes do retorno ao trabalho. Nesse período, a mulher pode aprender ou aperfeiçoar a técnica de ordenha e começar a armazenar pequenas quantidades de leite.
Segundo Miriam, não é necessário formar grandes estoques.
“Não é necessário fazer um estoque enorme. O mais importante é aprender a ordenhar, armazenar corretamente e estabelecer uma rotina que seja confortável”, orienta.
A enfermeira destaca que o acompanhamento de profissionais de saúde pode ajudar a esclarecer dúvidas e reduzir a insegurança durante a adaptação. Cada mulher possui uma rotina e uma produção de leite diferentes, o que torna importante uma orientação individualizada.
No Hospital Madrecor, segundo Miriam, o apoio começa ainda após o nascimento do bebê.
“Aqui no Madrecor, a mãe possui todo o apoio da equipe. Logo após o parto, as enfermeiras auxiliam a mãe a colocar o recém-nascido no seio e durante a internação no alojamento conjunto. Ademais, o setor de lactário ajuda a mãezinha a fazer na prática a ordenha, tanto manual como na bomba elétrica, além de tirar todas as suas dúvidas”, afirma.
Ordenha ajuda a manter produção de leite
Durante a jornada de trabalho, retirar o leite é uma das formas de manter o estímulo das mamas e preservar a produção. A extração pode ser manual ou realizada com o auxílio de bombas próprias.
A ordenha manual é considerada uma alternativa simples e acessível e pode ser aprendida ainda durante a internação hospitalar ou em consultas de acompanhamento.
Não existe, entretanto, uma quantidade fixa de ordenhas indicada para todas as mulheres. A frequência pode variar conforme o período em que a mãe permanece longe do bebê, o volume produzido e as características individuais da lactação.
“A produção de leite depende do estímulo. Quanto mais a mama é esvaziada pelo recém-nascido ou pela ordenha, maior tende a ser o estímulo para a produção”, explica Miriam.
Sempre que possível, a mulher pode organizar momentos para retirar o leite durante a jornada. Conhecer previamente a estrutura disponível no local de trabalho também ajuda no planejamento.
Sala de apoio oferece mais privacidade e segurança
Empresas podem contribuir diretamente para a continuidade da amamentação oferecendo espaços destinados à ordenha.
As salas de apoio à amamentação são ambientes reservados que permitem à trabalhadora retirar o leite com mais conforto, segurança e privacidade, além de possibilitar sua conservação adequada durante o expediente.
Para Miriam, o período destinado à ordenha deve ser entendido como uma necessidade relacionada à saúde materna e infantil.
“Primeiro, respeitando o momento da ordenha como uma necessidade de saúde, e não como um privilégio. A empresa pode oferecer um espaço limpo, confortável e reservado, além de condições adequadas para armazenamento do leite. Os colegas também podem contribuir evitando julgamentos e ajudando a criar uma cultura de respeito”, ressalta.
Armazenamento do leite exige cuidados
Outro ponto fundamental para manter a amamentação no trabalho é o armazenamento correto do leite retirado.
O leite humano cru pode permanecer por até 12 horas na geladeira e até 15 dias no freezer ou congelador. Os recipientes devem ser identificados com informações como data e horário da coleta.
Uma das opções recomendadas é utilizar frasco de vidro incolor, de boca larga e com tampa plástica que feche adequadamente.
“O frasco de vidro de boca larga, com tampa plástica que feche bem, devidamente higienizado, é uma das opções recomendadas”, explica a enfermeira.
Antes do uso, o frasco e a tampa devem ser lavados e fervidos por 15 minutos, contando o tempo após o início da fervura. Em seguida, devem secar naturalmente, com a abertura voltada para baixo, sobre uma superfície limpa.
No trabalho, o leite precisa permanecer refrigerado. Para o transporte até a residência, pode ser utilizada uma caixa ou bolsa térmica com gelo. Ao chegar em casa, o leite deve ser imediatamente colocado na geladeira ou no freezer, dependendo de quando será utilizado.
Micro-ondas não deve ser usado para aquecer leite materno
O descongelamento e o aquecimento também precisam seguir cuidados específicos.
O leite congelado pode ser previamente descongelado na geladeira e aquecido em banho-maria, fora do fogo. O uso do micro-ondas não é indicado, principalmente porque pode provocar um aquecimento desigual do alimento, formando regiões excessivamente quentes.
Após o aquecimento, o recipiente pode ser movimentado delicadamente para homogeneizar a gordura naturalmente separada durante o armazenamento.
“Depois, deve-se movimentar suavemente o recipiente para misturar a gordura que se separou”, orienta Miriam.
Também é recomendável evitar mamadeiras e chupetas durante o processo de manutenção da amamentação. Para oferecer o leite ordenhado, uma possibilidade é utilizar copinhos adequados, seguindo orientação profissional.
Mãe também precisa de acolhimento
Além das questões práticas, o retorno ao trabalho envolve mudanças emocionais importantes.
Ansiedade, preocupação, cansaço e estresse podem dificultar temporariamente o reflexo de saída do leite, sem necessariamente significar redução definitiva na capacidade de amamentar.
Por isso, Miriam destaca que a mãe não deve transformar o aleitamento em uma cobrança pessoal.
“Cada mãe e cada bebê têm uma realidade diferente. Não precisamos transformar a amamentação em uma cobrança ou em uma prova de desempenho. Precisamos oferecer acolhimento, informação segura e condições para que essa mulher faça o melhor possível dentro da sua realidade”, afirma.
A participação da família também é importante. Dividir responsabilidades domésticas, respeitar os momentos de amamentação e ordenha e ajudar nos cuidados com o bebê podem tornar a rotina menos desgastante.
Trabalhadoras têm direito a pausas para amamentação
A legislação brasileira prevê proteção específica para mulheres que amamentam depois do retorno ao trabalho.
Até que o bebê complete seis meses, a trabalhadora tem direito a dois descansos especiais de 30 minutos durante a jornada para amamentação. Os horários devem ser definidos em acordo individual entre a mulher e o empregador.
Quando a saúde da criança exigir, esse período de seis meses também pode ser ampliado, conforme avaliação da autoridade competente.
Para a enfermeira obstetra, garantir direitos e estrutura adequada nos locais de trabalho é parte da rede necessária para ampliar a duração da amamentação.
“Com informação, planejamento e uma rede de apoio, muitas mães conseguem conciliar trabalho e aleitamento. Amamentar é uma responsabilidade compartilhada: da mãe, da família, dos profissionais de saúde, da sociedade e do ambiente de trabalho. Informação transforma. Apoio fortalece, e uma mãe acolhida tem muito mais condições de seguir sua jornada com segurança”, finaliza Miriam.
Serviço
Agosto Dourado 2026
Campanha de conscientização e incentivo ao aleitamento materno
Orientação: mulheres que estão se preparando para retornar ao trabalho podem procurar profissionais de saúde, enfermeiros obstetras e serviços especializados em amamentação para receber orientações individualizadas sobre ordenha, conservação e oferta do leite materno.
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