Tabagismo no Ceará acende alerta com avanço da experimentação do cigarro convencional entre adolescentes e crescimento do contato com vapes; pneumologista explica os riscos da dependência precoce de nicotina
O tabagismo no Ceará apresenta um cenário que chama atenção às vésperas do Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto. Enquanto o Brasil registrou queda na experimentação do cigarro convencional entre adolescentes, o Ceará foi o único estado do país a apresentar aumento nominal na proporção de estudantes de 13 a 17 anos que afirmaram já ter experimentado o produto entre 2019 e 2024.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE 2024, mostram que 18,7% dos estudantes cearenses nessa faixa etária já haviam experimentado cigarro, contra 17,6% em 2019. No Brasil, o movimento ocorreu no sentido contrário, com redução de 22,6% para 18,5% no mesmo intervalo.
Os números reforçam uma mudança no perfil da exposição à nicotina entre os mais jovens. Ao mesmo tempo em que o cigarro convencional perde espaço nacionalmente, os dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como vapes, pods ou cigarros eletrônicos, avançam entre os adolescentes.
Para a pneumologista Alina Farias Franca, da Clínica SiM, a transformação exige que as estratégias de prevenção acompanhem as novas formas de consumo.
“O que mudou foi a forma de apresentação da nicotina. Para o adolescente, o cigarro eletrônico pode parecer distante da imagem tradicional do cigarro, mas isso não significa que seja inofensivo. A nicotina continua tendo alto potencial de dependência, e quanto mais cedo ocorre o contato, maior é a preocupação com a consolidação desse consumo ao longo da vida”, explica.
Vapes avançam entre adolescentes
A expansão dos cigarros eletrônicos aparece de forma ainda mais intensa nos dados nacionais. Em 2024, 29,6% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos afirmaram já ter experimentado cigarro eletrônico. Em 2019, eram 16,8%.
No Nordeste, o percentual passou de 10,8% em 2019 para 22,5% em 2024, mais que dobrando em cinco anos.
O avanço ocorre em um cenário no qual formatos, aromas e características visuais dos dispositivos podem contribuir para diminuir a percepção de risco entre os jovens. A experimentação em ambientes sociais também pode abrir caminho para um consumo recorrente.
Fortaleza tem uma das menores prevalências entre adultos
Entre os adultos, o histórico brasileiro aponta para uma redução significativa do tabagismo nas últimas décadas. A proporção de fumantes no conjunto das capitais brasileiras e do Distrito Federal caiu de 15,7% em 2006 para 11,5% em 2024.
Apesar da queda no período mais longo, o indicador permaneceu estatisticamente estável na análise entre 2019 e 2024.
Em Fortaleza, o Vigitel 2023 registrou 6,5% de adultos fumantes, colocando a capital cearense entre aquelas com menor prevalência do hábito naquele levantamento.
Para Alina Franca, porém, os avanços obtidos entre a população adulta não eliminam a necessidade de manter políticas de prevenção e ampliar o cuidado com pessoas dependentes de nicotina.
“O Brasil teve uma evolução muito importante no controle do tabagismo, mas uma redução da prevalência não significa que podemos baixar a guarda. Ainda existem pessoas dependentes que precisam de tratamento e, ao mesmo tempo, precisamos impedir que adolescentes iniciem o consumo de nicotina”, afirma.
Por que adolescentes são mais vulneráveis à nicotina?
A adolescência é marcada por intenso desenvolvimento cerebral, o que torna a exposição precoce à nicotina especialmente preocupante. A substância pode favorecer a dependência e interferir em processos relacionados à concentração, aprendizagem e controle de impulsos.
Outro desafio é a percepção de que a experimentação ocasional não representa risco.
“Um dos problemas é que a primeira experiência pode parecer inofensiva. O adolescente experimenta, repete em situações sociais e, quando percebe, já existe uma rotina de consumo. Por isso, a prevenção precisa acontecer antes da dependência estar instalada”, explica a pneumologista.
Nesse contexto, a orientação de familiares, escolas e profissionais de saúde ganha importância não apenas em relação ao cigarro convencional, mas também diante das novas formas de apresentação e consumo da nicotina.
Dependência não deve ser tratada como falta de força de vontade
Para quem já fuma, o acompanhamento profissional pode ser importante mesmo quando ainda não existem sinais de uma doença pulmonar avançada. O atendimento permite avaliar o grau de dependência, identificar fatores relacionados ao consumo e definir estratégias para a interrupção do hábito.
“Parar de fumar não deve ser tratado simplesmente como uma questão de força de vontade. A dependência de nicotina pode exigir acompanhamento profissional, mudanças comportamentais e, em alguns casos, tratamento medicamentoso. Uma recaída também não significa que a pessoa fracassou: pode fazer parte do processo até conseguir abandonar definitivamente o consumo”, destaca Alina Franca.
Com a chegada do Dia Nacional de Combate ao Fumo, em 29 de agosto, o cenário coloca dois desafios em evidência: preservar a trajetória de redução do cigarro tradicional e impedir que novas formas de consumo de nicotina ampliem a dependência entre adolescentes e jovens.
Sobre a Clínica SiM
A Clínica SiM integra a SiMco, Healthcare Platform, e atua com serviços de saúde acessível nos estados da Bahia, Ceará e Pernambuco. O grupo informa possuir mais de 230 mil beneficiários ativos e mantém uma estratégia de expansão voltada à ampliação do acesso a consultas, exames e outros serviços médicos.
Serviço
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