Especialista em governança e sócio da RS Governance defendeu que organização das relações familiares, planejamento sucessório e profissionalização da gestão devem anteceder estruturas formais de governança
A longevidade das empresas familiares depende não apenas de resultados financeiros, mas também da capacidade de organizar relações, definir responsabilidades e preparar as próximas gerações para a continuidade do negócio. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas por Rafael Saldanha, especialista em governança e sócio da RS Governance, durante a palestra “Desafios e oportunidades da empresa familiar”, realizada nesta sexta-feira (21), no auditório da Bezerra Oliveira, em Fortaleza.

Durante o encontro, Saldanha abordou desafios que costumam surgir quando família, patrimônio e gestão empresarial passam a ocupar o mesmo ambiente. Segundo o especialista, conflitos não mediados, ausência de critérios para avaliação de desempenho e processos sucessórios conduzidos sem planejamento podem comprometer tanto as relações familiares quanto a sustentabilidade das empresas.
A principal orientação apresentada foi de que a implantação da governança não deve começar necessariamente pela criação de conselhos, protocolos e outras estruturas formais. Antes disso, é necessário compreender como os integrantes da família se relacionam com o negócio, estabelecer responsabilidades e construir mecanismos capazes de tornar as decisões mais claras.
“Quando esses problemas não são enfrentados, eles criam um passivo relacional que, com o tempo, pode impactar diretamente os resultados e a sustentabilidade da empresa. A governança precisa começar pelas pessoas e pela forma como elas se relacionam com o negócio”, destacou Saldanha.
Quatro gargalos desafiam empresas familiares

Durante a palestra, Rafael Saldanha apresentou quatro gargalos recorrentes na trajetória das empresas familiares. Entre eles estão decisões inadequadas relacionadas às pessoas, amadorismo nos processos sucessórios, sobreposição entre o patrimônio da família e o patrimônio empresarial e concentração de informações estratégicas.
Na avaliação do especialista, esses problemas podem permanecer pouco visíveis durante períodos de estabilidade, mas tendem a ganhar força em momentos decisivos, especialmente durante mudanças de liderança, entrada de novas gerações na empresa ou divergências sobre os rumos do negócio.
Por isso, a sucessão foi tratada como um processo que deve ser preparado com antecedência, critérios técnicos e clareza sobre as responsabilidades de cada pessoa. A discussão envolve não apenas a escolha de quem poderá assumir posições de liderança, mas também a preparação dos sucessores e a definição dos papéis de familiares que atuam ou não diretamente na gestão.
Relações familiares entram no centro da governança
Como caminho para enfrentar os desafios, Saldanha apresentou uma metodologia estruturada em três pilares: desenvolvimento de um relacionamento familiar funcional, estruturação técnica do processo sucessório e profissionalização da gestão com base em dados e critérios claros.
A proposta coloca as relações humanas como uma etapa fundamental da construção da governança. Para o especialista, a existência de regras e estruturas formais não é suficiente quando permanecem conflitos não resolvidos, indefinições de papéis ou dificuldades na comunicação entre os integrantes da família empresária.
A profissionalização também passa pela criação de critérios objetivos para decisões relacionadas à gestão, desempenho, ingresso de familiares na companhia e preparação de novas lideranças.
“A governança formal não é o fim. Ela é uma consequência de um processo de amadurecimento. Quando as pessoas, os papéis e os processos estão organizados, as estruturas de governança passam a cumprir seu papel de proteger o negócio e preparar a empresa para o futuro”, afirmou.
O debate ganha relevância diante do desafio enfrentado por empresas familiares de conciliar preservação do legado construído por seus fundadores com profissionalização, inovação e preparação para mudanças geracionais.
Ao colocar as relações familiares antes das estruturas formais, Saldanha defendeu uma visão de governança voltada não apenas à organização administrativa, mas à criação de condições para que família, patrimônio e empresa consigam atravessar diferentes gerações de forma sustentável.
Serviço
Palestra “Desafios e oportunidades da empresa familiar”
Data: 21 de agosto de 2026
Local: Auditório da Bezerra Oliveira, Fortaleza
Palestrante: Rafael Saldanha, especialista em governança e sócio da RS Governance
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